21/06/2009
A saga de Antônio Dó



Serrano de Pilão Arcado – A Saga de Antônio Dó. Uma obra que, do alto de sua plenitude, merece aplausos por todos os recônditos, por sua consistência tão bem dirigida pela reconhecida sabedoria do autor. É reveladora de uma realidade brutal do Brasil do final do século XIX e início do século XX, quando reconhecidamente o opressor, como uma ave de rapina e dentro de uma farda que nem sempre era dignificadora da espécie humana, desrespeitava o oprimido até as raias do absurdo. O leitor, em que pese o fim previsível porque a saga do personagem central é bastante conhecida no meio de historiadores, se comove com tantas agruras, virando um fanático torcedor ansioso pela chegada da justiça naquele sertão praticamente indômito para estabelecer a ordem no caos.

É neste cenário de caos, traduzido pelo desrespeito aos menos bafejados pela sorte, que se descortina o que eu asseverei em meu recente livro, “A Inacabada Família Humana”: até os palermas reagem nas situações aflitivas, voltando-se contra a justiça dos chafurdados na lama, os mesmos potentados que presentemente vão devorando esta nação, locupletando-se ilicitamente em detrimento dos menos favorecidos.

Petrônio Braz conduz, no mesmo ritmo dos melhores maestros dirigindo e dando vida à orquestra, a transição perfeita do rurícola honesto, bondoso e prestativo, respeitador dos valores da sociedade estabelecida do seu tempo, para o temido Antônio Dó, herói-bandido que de vítima passou a algoz, mostrando a vulnerabilidade e os temores dos detentores de patentes lustrosas quando apanhados fora do seu meio que os fazem sentir-se acima do bem e do mal, alongando-se paralelamente, porque pertinente ao ambiente em que os fatos se desenrolaram, na vida e nos costumes dos ribeirinhos do Rio São Francisco, cidadãos pacatos e os lídimos preservadores das tradições e do folclore brasileiros, transmitidos oralmente de geração para geração.
Vencido pela seca no sertão de Pilão Arcado, na Bahia, lugar de gente valente e povoação diminuta pelas lutas sangrentas, entre 1840 e 1848, entre duas famílias rivais, que antes pensara em acompanhar o lendário Antônio Conselheiro, homem puro e religioso fanático vitimado, sem culpa no cartório, pela soberba da emergente República, o patriarca comunica para a família a sua decisão de embarcar, “sem olhar pra trás”, em busca de um lugar melhor em terras mineiras. Antes do anoitecer do último dia de abril de 1878, os Antunes de França viram pela última vez Pilão Arcado, escondido no pontal, na primeira curva do São Francisco.

Em seu heroico esforço de pesquisa, que lhe custaram 23 anos, resgatando, em forma romanceada, o verdadeiro Antônio Dó, com o que venceu o desafio que se impôs de revelar a sua verdadeira personalidade, Petrônio Braz, também jurista e autor de uma série de livros nesta área e ainda “Jandaia em Tempo de Seca”, membro de diversos sodalícios literários, traz, no linguajar típico do sertanejo, no mesmo diapasão de Guimarães Rosa, a transformação do bom camponês, por força de deploráveis injustiças que sofreu por parte dos mandatários de então, em temido chefe de jagunços, vencendo todas as expedições contra si enviadas pelo Governo. A triste sina de Antônio Dó merece ser lida pelos apreciadores dos melhores romances, que devorei em duas madrugadas, torcendo pelo impossível: para que a leitura continuasse indefinidamente.


 Autor: Leonardo Álvares S. Campos
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7/06/2009
O Rancho da Lua nos Anos Dourados



 

Diretamente do túnel do tempo, era o dia 4 de julho de 1959, um sábado. Brejo das Almas ou Francisco Sá estava em festa com a inauguração solene de agência do Banco do Brasil. Ainda me lembro que a solenidade foi presidida pelo Sr. Francisco Barbosa Cursino, gerente da agência de Montes Claros, que representava a Presidente do Banco com muita pompa e circunstância. Desate da fita inaugural, os discursos de praxe, foguetório (não me recordo se houve banda de música). Houve um momento muito especial, exatamente quando chegou ao local o querido casal de escritores Olyntho Silveira e dona Yvonne de Oliveira Silveira. Eles roubaram a cena, pois não chegaram para os abraços de todos  que queriam cumprimentá-los. Foi a primeira vez que os vi e só os conhecia de nome e renome pelas colaborações que assinavam na Gazeta do Norte.

            De resto, também era minha estréia em solo brejeiro, mas já ouvira falar da fama de festeiro do povo do Brejo. Muitos anos passados, ouvi do inesquecível Zeca de Deus Prado, por várias vezes, que o “brejeiro é um povo festeiro!” Depois do ato cívico, foi servido aos convidados um coquetel regado com champanha em doses homeopáticas e um “buffet” quase simbólico, conforme a tradição de austeridade do então sisudo Banco do Brasil. Agora, ele tem propaganda na televisão, patrocina o esporte e a cultura, distribui camisetas; mas antigamente o regime era discreto e sóbrio. Nada de marketing, nem ostentação.  Obviamente, hoje é bem mais saudável.

            Felizmente, à noite, houve hora-dançante no clube, para compensar a viagem dos jovens funcionários da agência de Montes Claros, que foram prestigiar o evento, sendo um deles o autor destas linhas. Ainda me lembro, muito vagamente, da face brejeira da moça meiga com quem dancei e bisei várias vezes e nunca mais voltei a vê-la, na roda da vida. Soube que está no céu, de onde deve ter vindo, junto dos anjos e querubins.

            Depois que a dança terminou, como no verso imortal, “a festa acabou, o povo sumiu e a noite esfriou”. E agora, rapazes? Na rua deserta, um vento forte soprava sem cessar. Não encontramos vaga para pernoite, no hotel superlotado. Estávamos na rua, perdidos na noite, de paletó e gravata, muito elegantes porém expostos à intempérie e sem ter como nos proteger do frio.

            De repente,   a salvação, quando um colega esperto nos levou para o Rancho da Lua, o único abrigo em que poderíamos estar protegidos contra o vento gelado que açoitava. Nossa chegada ao bordel provocou curiosidade da freguesia, que lá se divertia, bebericando e dançando, geralmente fazendeiros, caminhoneiros, viajantes e boêmios da cidade. Gente simples e descontraída, em manga de camisa, certamente estranhando a presença dos almofadinhas que chegaram da festa do banco. Porém correu tudo bem,em clima de confraternização, graças ao relativo conforto e à hospitalidade que ali encontramos. Ora, para quem estava no olho da rua, morrendo de frio, aquela casa iluminada de mulheres e homens perdidos era um palácio suntuoso onde imperava o amor livre e a paixão, ao som de melodias que falavam de traição, de desventuras...

            Além do mais, como se não bastasse o romantismo do ambiente, tinha uma deliciosa comida típica brejalmina, tinha pista de dança e tinha até radiola automática de alta fidelidade coadjuvada pelo piano de Waldyr Calmon, na coleção de elepês “Feito para dançar”, que fazia sucesso nacional. Nesse clima, a animação tomou conta da madrugada fria do Brejo, embalada por boleros mexicanos e o samba de Noel Rosa. Os bancários engravatados tiraram os paletós e caíram na dança até o dia clarear, quando tomaram o ônibus de volta. Alguns deles ainda estão por aí, aposentados, tocando o barco, encanecidos. E há os que ficaram na saudade, tombados no meio do caminho. Quanto ao Rancho da Lua, ficou apenas na lembrança das gerações mais velhas, desapareceu nas brumas do tempo.

            ... E o vento levou.     

 

 

(Prefácio de “O Rancho da Lua e outras memórias” , AMELINA CHAVES

 – Gráfica Editora  Millennium, 2009)


 Autor: HAROLDO LÍVIO
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4/06/2009
RÉQUIEM PARA BISONHO



Bisonho, a personagem da turma do ursinho Pluft, ora se mostrava cinzento, ora azulado. Tinha pernas curtas, orelhas caídas e, do seu natural, era pessimista e resmungão. Não tinha rabo e, vez ou outra, improvisava um, que era, precariamente, afixado com alfinete.

Bisonho também era o apelido que amigos de infância e colegas deram ao menino Hílton e que ele aceitava, numa boa.

O Bisonho de Hílton nada tinha a ver com o bisonho adjetivo, que o filho de Zé Chila nunca foi limitado ou acanhado. Pelo contrário.

O burrinho do desenho animado, apesar de pessimista e resmungão, revelava-se inteligente, simpático e afável. Hílton tinha essas qualidades também. E mais: estudioso, determinado, bem resolvido, dono de educação primorosa, bom companheiro, alegre e brincalhão.

Foi meu aluno, faz tempo. De Zé Chila, o pai, lembro-me de que era zagueirão vigoroso, marcador implacável, bom de cabeceio e rebatidas.  De certa forma, lembrava Belini, aquele da Copa de 58. Jogava no Ferroviário Esporte Clube. Quando menino, eu o via jogar e gostava dele. Profissionalmente, era maquinista da Central. Recordo-o, com alguma saudade.

Perdi contato com Hílton e Zé Chila, numa dessas encruzilhadas da existência.

Bisonho, eu o reencontrei, por acaso e na rua, há cerca de dez anos. Ele me reconheceu e abraçou-me. Fiquei feliz em revê-lo.

No exíguo tempo do reencontro, fiquei sabendo que se formara e trabalhava na Petrobras. Vida feita - pensei. E merecidamente.

Agora, acabo de ler o nome do querido ex-aluno, na lista dos passageiros do avião da Air France, que se afundou, no Atlântico, no início da madrugada de segunda-feira.

Para quem já perdeu pai, mãe e os irmãos todos, como eu, a morte na passa de fato normal e, assim, não causa maiores abalos emocionais.

Neste caso, no entanto, a notícia do desaparecimento de Bisonho mexeu comigo.

Nos meus quarenta anos e meses de salas de aula, tive centenas de alunos marcantes. Hílton foi um deles.

Neste momento, resta declarar-me  solidário à família, fazer uma prece sincera e despedir-me do jovem brilhante.

Adeus, Bisonho! Um dia nos reencontraremos, numa sala de aula qualquer da eternidade.


 Autor: Antônio Augusto Souto
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26/05/2009
MESTRA ROSITA ROSA AQUINO



 

 

 

 

A grande dama alcança a gloriosa idade de noventa anos, e a família comemora a passagem da efeméride e convida os amigos, ex-alunos e admiradores para a festa. A aniversariante possui, realmente, mérito para a celebração de sua chegada a esse marco da existência que poucos conseguem alcançar.  Trata-se de cidadã de alto valor moral e social, mercê de sua atuação no campo do magistério, em que participou da educação de gerações de jovens.Se  o leitor ainda não a conhece, procure conhecê-la, porque passará também a admirá-la, sabendo de suas elevadas virtudes. Ela tornou-se muito conhecida em Montes Claros, sua cidade natal, sendo conceituada como expoente de sua classe e profunda conhecedora do vernáculo. Tive a honra e o privilégio de ter sido seu aluno de Português, no Colégio Diocesano, no distante ano de 1953. Como o tempo voa! Ela era um jovem senhora de 34 anos, no auge da mocidade, e seu aluno era um frangote de 14 anos com dificuldade para aprender os mistérios da complicada análise lógica. Separava-nos e continua nos separando a diferença de 20 anos, estando a mestra glorificada pelos novent’anos e o aluno vivendo os setent’anos, que não passam de uma questão de números a mais ou a menos.

 Delicada, de voz baixa, meiga e naturalmente educada, não dá para acreditar, agora, que dominava com sua autoridade moral e peculiar bondade, uma turma de adolescentes que perturbavam a disciplina e que, volta e meia, recebiam punições. Com ela não tinha mão de ferro nem cara fechada. Ela chegava risonha e transbordando simpatia. Começava a chamada dos presentes, com a ordem se estabelecendo, até o silêncio total, no último nome. Mesmo moleques endiabrados como o campeão Marcelino Nascimento, Mário Tourinho, João Ruas, Nequinho Martins, Briguelito, Valmy Brito e outros menos votados  se inclinavam, respeitosamente, diante da jovem professora, que se impunha pela doçura de temperamento.

Diante de uma mestra cujo nome, Rosita Rosa, parece ter sido tirado de um verso, mau elemento nenhum se atreveria a perturbar a ordem, embora fossem bons garotos, a maior parte deles vivos apenas na saudade. Se estivessem todos por aqui, gostariam, por certo, de aplaudir os noventa maios da professora de Português.

Dona Rosita Rosa Aquino, nonagenária pela graça de Deus, merece os aplausos que

saúdam  sua inscrição na seleta lista de que fazem parte Yvonne Silveira, Ruth

Tupinambá, Luiz de Paula, Maria Celestino 

Todos em atividade literária aos noventa anos, produzindo com o mesmo apuro da mocidade.  Dona Rosita dedicou-se à gramática , que preparou muita gente para a arte de escrever. Parece ter escrito pouco, ou não publicou o que pode ter produzido, o que é uma pena, se tiver acontecido. Pessoalmente, ganha nota 10 como amiga, como mestra, como filha, como esposa modelo, como mãe, avó e bisavó apaixonada por seus entes queridos. Poucas pessoas conseguiram tanta felicidade na vida. Assim, recebendo a coroa de glória de seu merecimento, ensina a todos nós, seus eternos discípulos, que vale a pena viver, em paz e com a consciência tranquila do dever cumprido. .

 

 

                                      Do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


 Autor: HAROLDO LIVIO*
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20/04/2009
NAVIO NO HORIZONTE



Quase na linha do horizonte,

quase no fim do mar,

passa navio fagueiro,

cintilante e devagar.

 

Terá saído de Santos

e o Atlântico vai cruzar?

Oropa, França e Bahia;

Turim, Aracaju, Madagascar...

 

Navio que passa ao longe

deixa sugestões no ar:

automóveis de São Paulo,

ferro das Minas Gerais,

entranhas de Carajás,

brasileiros em recreio

e milhão de coisas mais.

Brasil evadindo-se,

passeando,

transferindo-se,

deslizando sobre o mar.

 

Possível manobra à direita

e o navio cruza a ponte

imaginária que permite

alcançar tudo o que existe

de bom ou de ruim,

alegre ou triste,

além,

muito além do horizonte.


 Autor: Antônio Augusto Souto
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8/04/2009
A CANTADA DE RODRIGO



Na última vez em que estive na casa dos netos, Rodrigo, de seis anos, pegou-me pela mão e me arrastou, para longe das outras pessoas que lá estavam.. Fez-me sentar e, em seguida, pulou para o meu colo. Sem qualquer transição ou preparação prévia, fez-me pergunta e, de emendada, ofereceu a resposta: "Vô, se você levar para sua casa um computador novinho e com Internet, sabe o que vai ganhar? Eu!"

Minutos depois, fiquei sabendo a motivação da surpreendente cantada: André, o irmão de nove anos, acabara de ganhar máquina moderna, com Internet banda larga.

Se bem conheço da filha e do genro, o primeiro neto varão deve ter feito por merecer o mimo. Achei, também e pelo mesmo motivo, que ainda não era chegada a hora de Rodrigo. Senti-me seguro de que foram tomadas as cautelas necessárias, com relação a André e ao fato de ele ter sido posto diante de uma fantástica janela para o mundo. Mesmo assim, fiquei preocupado com a exposição de um pré-adolescente dócil e ingênuo aos perigos que a virtualidade pode representar.

Informaram-me que foram impostos horários e regras de uso. Alguns bloqueios estratégicos e discreto monitoramento à distância também se providenciaram. Ainda bem que Deus é pai.

Tomou-se decisão: Rodrigo, por hora, não teria computador exclusivo. Nem iria morar lá em casa. A máquina e o ambiente avoengo iriam, com certeza, desestruturar o menininho e mudar o rumo da educação que ele vem recebendo.

O episódio, por outro lado, revelou-me que, em realção a mim, as filhas deram um considerável salto qualitativo. Ainda considerando-me como ponto de partida, o salto dos netos foi gigantesco. Isso inflou meu ego e me deixou feliz.

No meu tempo de criança e de pré-adolescente, eu mesmo fazia meus brinquedos: pião de goiabeira, estilingue, bilboquê, caminhãozinho de madeira, papagaio de papel e carrinho de rolimã. Lia histórias em quadrinhos e fazia palavras cruzadas. Ia à matinê dominical do cine Coronel Ribeiro, ver filmes de Cantinflas, de Oscarito e Grande Otelo; seriados do Zorro, de Tarzã e Durango Kid. Na porta do cinema, antes de entrar ou na saída, trocava gibis com o pessaolzinho que fazia o mesmo que eu.

Talvez seja por isso que a Internet ainda não tenha conseguido seduzir-me. Não a desdenho, no entanto. Valho-me dela para efetuar pesquisas profissionais, ler notícias, mandar e receber mensagens. O resto não me interessa.

Quanto ao computador em si, uso-o constantemente, para redigir textos advocatícios e ensaiar a literatura pobrezinha de que ainda sou aprendiz. Desconheço noventa e nove por cento das possibilidades dessa máquina incrível. Talvez por desinteresse. Ou burrice mesmo.

Em casa, tenho maquininha sem Internet. Uso-a,  nas manhãs de sábado, para fazer o que já registrei, no parágrafo anterior.


 Autor: Antônio Augusto Souto
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31/03/2009
Porque meu casamento não podia dar certo...



 

- Elton, meu bem, vem pra cama! Já são quase 3 horas da madrugada!

- Peraí, amor... tô quase acabando...

- Esse negócio de Internet vai te deixar internado... num manicômio!

- É para o jornal. Uma reportagem que estou fazendo. Tô pesquisando nos principais jornais do mundo. Esse aqui é o Asahi Shimbun.

- Saúde!!!

- Saúde o quê?

- Oras, você espirrou!

- Não sacaneia, mulher. Asahi Shimbun é um jornal japonês!

- E desde quando você sabe ler aqueles pauzinhos?

- Essa edição é traduzida para o inglês. E não são pauzinhos, são ideogramas!

- Quanta erudição!

- Ô, benhê, pára de perturbar e volta a dormir, senão minha pesquisa não fica pronta hoje.

- Como é que eu vou conseguir dormir com essa sua impressora fazendo tanto barulho?

- Tá bom. Eu desligo a impressora. Vou passar tudo pro “C” e amanhã imprimo o resto.

- Passar pra mim o quê???...

- Não é passar pra você, é pro C, a letra que representa o HD, onde a gente guarda tudo no computador... ah, esquece!

- Esquece por quê? Você acha que sou burra demais pra aprender essas coisas?

- Não é isso, meu amor. É que a gente precisa de um conhecimento específico para entender o funcionamento dessas máquinas, e de mais a mais a essa hora da madrugada não dá para raciocinar direito. Vai dormir, vai!!?...

- Elton, meu bem... só mais uma coisa... é rapidinho... como é que você consegue achar aí um jornal do Japão?

- É fácil, mulher. Pelo browse a gente entra em alguns desses sites que fazem o papel de catálogos de Home Pages. Você digita um nome ou um assunto e faz uma pesquisa...

- Eita... traduz, por favor...!

- Putz... tem uns... uns... uns programas que têm todos os endereços de páginas na Internet.

- O que é um brause? É grande?

- Ô, benzinho, você vai sacanear ou prestar atenção?

- Cumé que vou entender essa língua que você tá falando? É bráulio, romipeige, sáite...

- Não é bráulio, é browse. E vê se fica calada e presta um pouquinho de atenção, pois já tá me deixando nervoso. Escuta só: tem uns programas que servem de catálogos, então a gente escolhe o assunto e pesquisa através do Browse, aí aparecem na tela os endereços e é só escolher um, clicar duas vezes em cima com o mouse que aparece a home page... a página que você quer.

- Página???... Até há pouco não era tela?

- Aiaiai, meu saco... presta atenção: a gente chama de página a home page que aparece na tela.

- Outra coisa: esse tal de brause dá só o endereço? A internet não é pelo telefone?

- Ai, meu cacete!

- Que grossura, custa explicar?

- Endereço na internet é um código que se digita para acessar as páginas. É claro que é por telefone... é preciso uma linha telefônica pra gente poder instalar a internet...

- Meu bem, então dá pra chamar a mamãe pelo telefone daí do computador?

- Agora chega! Não vou pesquisar mais nada. Deixa essa pesquisa pra amanhã, que eu já enchi o saco. Aliás, eu juro: amanhã eu vou comprar um Penttium pra trabalhar lá no jornal e...

- Pra que você quer um pente no jornal, se você é careca e não tem cabelos pra pentear?

- Vá pra merda!!!...


 Autor: Elton Jackson
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24/03/2009
Produção Literária




Abri, por acaso, o livro “Cartas de Inglaterra”, de Rui Barbosa, e reli o primeiro capitulo: Duas glorias da humanidade. Escreve ele que “ninguém poderá desvanecer-se de ter percorrido intelectualmente a Inglaterra, se não ousou uma excursão pelas regiões sui generis da obra de Carlyle, que parece confinar, por outro lado, com Shakespeare, por outro lado com a Alemanha de Goethe, Schiller e João Paulo Richter”.
Nossa submissão primeira à cultura que nos vinha da França, até princípios do ultimo século e, depois da Ingla¬terra, por imposição econômica, nos leva a, esquecendo do que é nosso, permanecermos atrelados ao que nos vem de fora. Essa submissão foi necessária aos escritores do passado, especialmente aos do século XIX. Obrigatoria¬mente, não existe mais.
Parodiando Rui Barbosa posso afirmar que ninguém poderá ufanar-se de ter explorado intelectualmente o Norte de Minas, se não ousou uma incursão pelas obras de João Valle Mauricio e pela vida de João Chaves. Da leitura das obras do imortal João Valle Mauricio e da biografia de João Chaves, escrita por Amelina Chaves, verifica-se que o solo árido de nosso sertão está marcado pela pre¬sença fértil de expoentes culturais da mais alta valia.
João Valle Mauricio, da Academia Mineira de Letras, autor de “Grotões”, “Janela de Sobrado”, “Beco da Vaca” e “Taipoca”, além de outros escritos, inscreve-se como uma das glorias imortais da terra dos montes claros. Em suas obras misturam-se valores outros, da mesma terra e da mesma região, como Haroldo Lívio, Antônio Augusto Souto, Konstantin Cristoff, Milena Mauricio e outros. Na biografia de João Chaves associam-se as figuras marcantes de Amelina Chaves e Manoel Hygino dos Santos. Na leitura de “Taipoca”, apreciamos o sertão em sua inteireza viva, embora com motivos urbanos, que se interligam e se projetam no contexto do sertão. Em “Beco da Vaca”, uma coletânea de crônicas publicadas pela imprensa regional, ele não foge da marca registrada de suas obras. O livro não é uma ruela do sertão, é uma avenida de cultura. Em suas memórias, retratadas em “Janela do Sobrado”, re¬vivemos Montes Claros. Como toda verdadeira obra literária, seus livros são atemporais.
Amelina Chaves, depois de nos brindar com “O Eclético Darcy Ribeiro”, mostra-nos em “João Chaves uma eterna lembrança”, com Prefácio de Manoel Hygino dos Santos, o mito João Chaves, um dos maiores fenômenos da cultura montesclarense de todos os tempos. “João Chaves ainda canta e encanta na voz do vento, nas pedras no chão, no coração de todo seresteiro”. A literatura está presente na poesia de João Chaves.
Guimarães Rosa com acerto afirmou que há pessoas que não morrem: ficam encantadas. João Valle Mauricio e João Chaves estão encantados no silêncio de suas sepulturas. Como Fênix eles renascem de suas próprias cinzas em cada instante em que deles nos lembramos.
A poesia de João Chaves está patente na sua arte de combinar os sons, mas a poesia sempre tem sido apresentada através de livros, revistas, jornais ou pela declamação do autor ou de terceiros em reuniões sócio-culturais. A informática, como a ciência que visa ao tratamento da informação através do uso de equipamentos, está revolucionando o mundo literário.
Aqui, pelo Norte das Gerais, na atualidade, Geraldo Antônio Dias Guimarães – Geraldo Guimarães – por intermédio do escritor Ronaldo José de Almeida, enviou-me um exemplar de sua obra “Pássaros em Revoada”, em DVD. Será o fim do livro impresso e o princípio de sua vivência em DVD? Não creio, pelo menos por enquanto. Geraldo Guimarães é mineiro, natural de Sete Lagoas, que concorre com Curvelo pela primazia de ser a porta de entrada do sertão das Gerais. Ele já publicou os livros “Vida: Eterna Poesia”, “Sementes da Loucura”, “Roupa Suja” e “Quando o Verbo é o Caminho”.
“Pássaros em Revoada” é apresentado em DVD, com trilha sonora instrumental, desenvolvido pela K&Kproduções. São ao todo trinta e três poemas em que o autor, com seu entusiasmo criador e inspirada imaginação idealista, retrata passagens de sua vida de maneira suave e romântica. Com narração própria ele empresta a cada poema beleza e emoção, ao tempo em que revela o seu grande amor à sua, que também é nossa, Minas Gerais. Ouvindo os poemas senti-me como em um sarau, em uma festa literária em que os participantes declamavam poesias. O autor recita com arte os seus poemas e nos transmite as suas próprias emoções, com gestos e entonações apropriadas.


 Autor: Petrônio Braz
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24/03/2009
Curimataí/Curumataí



 

Trafegando, um dia desses, pela BR 135, nas    proximidades de Augusto Lima, meu colega de ginásio Reynaldo Velloso Souto teve sua atenção despertada por uma curiosidade. Uma turma de operários, em serviço de manutenção da rodovia, havia retificado a grafia da placa colocada junto à ponte sobre o Rio Curumataí. Simplesmente mudaram o nome do curso d’água para Curimataí. Rey, que conhece a estrada como a palma de sua mão, achou o procedimento muito estranho, e anotou para futuro esclarecimento. Também já fui tomado pela mesma dúvida, em passado recente, por ocasião de uma excursão a Santa Bárbara, conhecida pela fábrica de tecidos centenária e pela fonte de águas termais, onde construíram um luxuoso resort.

Lembro-me de que, em visita ao interior da tecelagem, perguntei ao industrial Ferreirinha Paculdino qual o nome correto da localidade, se Curimataí ou Curumataí. Ato contínuo, ele esclareceu que se tratava de dois nomes diferentes de dois lugares diferentes, distantes entre si cerca de vinte quilômetros. Ilustrando a informação segura, situou Curimataí como povoado que já foi distrito de Diamantina e hoje pertence ao município de Buenópolis, dotado de clima saudável, no sopé da Serra Geral, e desfrutando do privilégio de possuir também águas termais de mais alta temperatura do Norte de Minas. Trata-se de  um recanto paradisíaco, ainda conhecido por poucos, que aguarda a iniciativa de um empreendedor para instalar ali um balneário de primeira linha. Curumataí, completou o informante, é apenas a denominação de um rio da bacia do Rio das Velhas e de uma estação da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, situada à sua margem, entre as estações de Buenópolis e Augusto de Lima.Era nessa estação que a fábrica recebia os fardos de algodão beneficiado e despachava os volumes de tecidos manufaturados.

Agora, vem o DNIT mudando a grafia do rio com o nome de um outro rio, que nem existe no mapa. O sinalizado Rio Curimataí  não passa de um engano, de um equívoco que pode ser facilmente corrigido, a bem da verdade. Basta o pintor ir lá e colocar o U no lugar do I. Antes de levar este fato ao conhecimento do publico que se interessa por cousas aparentemente sem importância, ou seja, cousas que não dão dinheiro, tive a cautela de ouvir quem entende do riscado e pode falar do assunto com a autoridade de catedrático. Um amigo de longa data, aposentado como alto funcionário da Rede Ferroviária Federal, Rosendo Martins Rabelo, nascido e criado por aquelas bandas de Curimataí e do Rio Curumataí, corroborou as informações que havíamos conseguido com outras pessoas conhecedoras da região. Para que não paire nenhuma dúvida, ele consultou a nominata de estações da RFF e descobriu uma falha em publicação oficial do IBGE que chama o Rio Curumataí de Curimataí. Certamente que o engano decorre de ser o povoado de Curimataí muito mais conhecido do que o Rio Curumataí, de caudal razoável escurecido pelas águas do Rio Preto..


 Autor: HAROLDO LIVIO
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20/03/2009
MEU SERTÃO DE JOÃO ROSA



Há palmeiras e buritis,

nestes vastos sertões de Minas.

Nos cenários de João Rosa,

inda há nascentes cristalinas.

 

Aqui, nasceu uma Sagarana

e brota rio - um rio enorme.

Ali, pasce Burrinho Pedrês

e Augusto Matraga dorme.

 

Grande Sertão de João Rosa:

carrascais e pequizeiros;

Riobaldo e Diadorim - trágicos,

shakespeareanos, mineiros!

 

Há veredas sobreviventes,

poucas matas inda fechadas,

fazendas grandes e pequenas

e tantas cruzes, nas estradas.

 

Cordisburgo, Angueretá,

Zero Quarenta, Manuelzão

que dorme, o rio São Francisco,

rio do Sono - aquele João...

 

Vejo ipês floridos, na serra;

recordo Noites no Sertão.

No Urubuquaquá, no Pinhém...

Quanta presença de João!

 


 Autor: Antônio Augusto Souto
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12/03/2009
Obituário: AMADEU FERREIRA PAULINO



                  

 

 

A história da vida deste grande homem daria um romance de trezentas páginas, se fosse contada em seus mínimos detalhes. Sejamos breves, todavia, relatando apenas o básico, o essencial. Ele nasceu em Grão-Mogol, em 29 de março de l926. Foram seus pais o famoso tabelião Hilário Marinho e sua esposa, dona Alda Barbosa Paulino, de famílias senhoriais da Cidade-presépio. Aos doze anos de idade, começou a trabalhar no cartório de seu pai. Curso primário nas Escolas Reunidas Dr. Christiano Monteiro Machado e ginasial nos colégios Afonso Arinos e Anchieta, em Belo Horizonte. Em 1945, era recruta no TG 299, da Capital, onde aguardava, ansioso, a ordem de embarque de sua unidade para os campos de batalha, na Europa, quando sofreu a maior decepção de sua vida. Acabou a Segunda   Guerra Mundial.

Retornou ao torrão natal, em 1947, para assumir o cartório de Paz e Registro Civil, para o qual prestara concurso. Casou-se, em 1949, com a tabeliã Maria Teresinha Rodrigues Paulino, autora do hino oficial da cidade, que lhe deu treze filhos. Em outra etapa de sua atribulada existência, teve mais quatro filhos com a Sra. Maria José Alves, aos quais não deixou faltar o teto e o pão, bem como o afeto e a bênção paternal.

Abriu um intervalo, na atividade de escrivão, para realizar o recenseamento de1950, na cidade de Virgem da Lapa, onde nasceu o primogênito do jovem casal. Trabalhou, ainda, em diversas áreas, para onde o encaminhou sua natureza de homem inteligente e empreendedor. Foi fazendeiro, no Pontilhão, foi farmacêutico e dentista prático, fotógrafo, alfaiate. Foi até parteiro, muito solicitado pelas famílias. Na oficina de seu sogro, Chico Pataquinha, teve uma rápida iniciação na arte da ourivesaria. Naturalmente que foi músico, como não poderia deixar de ser. Regia, compunha e tocava diversos instrumentos de sopro, de corda e percussão. Executava o violão com muito sentimento e unção, porém o instrumento de sua predileção era a clarineta em Si. Costumava animar os bailes da cidade serrana com os acordes melodiosos de sua sanfona.

Era um homem romântico, muito querido por seus conterrâneos, familiares e amigos, que amava a vida, a música, o seu trabalho, a beleza da mulher, a leitura de bons livros, um bate-papo animado e regado pela cerveja gelada e uma talagada da Barquinha, pinga de renome. Era um tipo inesquecível, que será sempre lembrado por quem o conheceu ou ouviu contar seus casos fantásticos. Recebeu, em vida, a merecida homenagem oficial da Câmara Municipal de Grão-Mogol pelos relevantes serviços prestados à cidade e seu retrato se encontra entronizado no salão do júri do Fórum Dr. Christiano Rello.

Na tarde de 7 de fevereiro passado, em meio a grande pesar, faleceu em paz e serenamente. Como disse o poeta, a noite desceu e encontrou o campo lavrado, a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar.

 


 Autor: Haroldo LÍVIO
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6/02/2009
INÍCIO DE FÉRIAS



Na linha do horizonte,

alvorada se anuncia;

como murmúrio de fonte,

um resto de melodia

embala a manhã nascente,

com a brisa do oriente.

 

Com a brisa, maresia

celebra o doce momento

do nascer de mais um dia.

Inda há, no firmamento,

poucas estrelas tardias.

São relapsas, são vadias.

 

No ar, as gaivotas primeiras

e as fragatas preguiçosas

adejam calmas, fagueiras,

pelas cores vaporosas.

O mar tranquilo semeia

espuma branca, na areia.

 

Horas suaves, venturosas,

sem arroubos, sem porfia,

se oferecem, generosas,

no início deste dia.

Me entrego ao mar de cores,

ao encanto dos sabores.

 


 Autor: Antônio Augusto Souto
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29/01/2009
Minas e Gerais



 

 

 

Minas Gerais não admite separação das duas palavras que compõem o nome da “formosa província”. O nome da Capitania do Ouro é inteiriço; se olhados isoladamente perdem a significação, tanto o substantivo Minas como o adjetivo Gerais. Quem chamou nossa atenção para a particularidade foi o cronista Itamaury Telles, que sabe das coisas e não deixa escapar nada à sua observação muito perspicaz. Ele vai mais longe, ainda, colocando-se em guarda contra essa novidade de querer distinguir-se as minas dos gerais, quando não existe a propalada diferença. Sabe-se que Minas Gerais são as minas geralmente encontradas, as minas em geral, as minas buscadas por todos os rincões da terra mineira. Quem faz esta discriminação quer mesmo é distinguir a parte considerada rica do estado montanhês da parte que é tida como o primo pobre. Tem aquela anedota de que o ribeirão do Arrudas,  em Belo Horizonte, seria o limite natural que deveria separar as duas partes. Tudo que se situasse na margem direita do córrego seria Minas, e na margem esquerda Gerais. Assim, Minas seria a região das minas e Gerais a região dos campos gerais, da labuta agrícola e pastoril. À primeira vista, parece até que faz sentido, mas não faz. É apenas um jogo de palavras bem articulado, que dá a impressão de embasamento lógico. Nossa região, ou melhor, nossa parte das Minas Gerais também é mineradora, também é rica em depósitos minerais. De improviso, sem necessitar de consultar os alfarrábios, apontamos a presença, nos municípios de Rio Pardo de Minas, Porteirinha e Grão-Mogol, da maior jazida de ferro contínua do mundo, aguardando para breve sua exploração industrial. Dentro de poucos meses, entrará em operação a mina de ouro de  Riacho dos Machados, com produção diária de duas toneladas do precioso metal, segundo notícia do Hoje em Dia. Em Paracatu, funciona a todo vapor outra mina de ouro maior ainda. A Serra Geral, que corta a região, é rica em minérios preciosos e estratégicos. Teófilo Otoni é pólo internacional no mercado de pedras preciosas e semipreciosas, conhecida em todo o mundo. Em tempos remotos, teria funcionado uma casa de fundição em São Romão, conforme tradição oral. Era o ouro, hoje é o gás natural, em volume superior ao da Bolívia, que acalenta o sonho do barranqueiro, de dias melhores que estão chegando. Temos, em nosso subsolo, tesouros de valor incalculável. Falta só cavar e tirar a riqueza guardada debaixo do chão. Foi o que aconteceu com as águas-marinhas de Pedra Azul e os diamantes de Diamantina, Grão-Mogol e Jequitaí. Você pode até não acreditar, mas já houve uma corrida do ouro em Montes Claros, em dias de antanho. Não é preciso enumerar outras ocorrências minerais, para provar que também somos Minas, Minas Gerais. Na verdade, o alvo deste comentário é a campanha cívica do Movimento Catrumano, que pleiteia a criação do Dia dos Gerais, em virtude de ter sido erguido na atual cidade norte-mineira de Matias Cardoso o primeiro templo católico em terras mineiras. Sentimos a presença da humildade, que é apanágio de nossa gente, na pretensão desproporcional à importância que deve ser atribuída ao fato histórico. Ora, se for finalmente comprovado e reconhecido que Minas Gerais começou na igreja jesuítica à beira do Rio São Francisco, nada mais justo e correto do que transferir para Matias Cardoso a comemoração oficial do Dia de Minas Gerais, com todos os efes e erres. Atualmente, a efeméride é comemorada todo 26 de julho com a transferência simbólica do governo estadual para a arquiepiscopal Mariana, primeira vila, primeira cidade, primeiro bispado e primeira capital de Minas Gerais, musa inspiradora dos versos divinos de Alphonsus de Guimaraens. Dia dos Gerais parece representar prêmio de consolação para nós, humildes catrumanos que somos.   


 Autor: HAROLDO LIVIO
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24/01/2009
Que país é este?



 

            Leio na coluna de Manoel Hygino, edição do Hoje Em Dia de sábado (24/1/2009), interessante artigo enfocando a mediocridade ambiciosa de uma parcela considerável de brasileiros. Sobre o assunto, bem antes da leitura, minha nora Lilian, esposa de meu filho Júnior, que reside na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, chamou-me a atenção, quando rodávamos em demanda à sua residência, sobre o grande número de placas e cartazes em língua inglesa. Disse-me ela: Agente tem a impressão de estar em Miami.

            Observei a ela que em Paris não se vê tantas placas ou cartazes em inglês. O francês tem orgulho de sua língua, que manteve, até a Segunda Guerra mundial, hegemonia cultural em todo o Mundo.

            Não só no Rio de Janeiro, mas em todas as cidades brasileiras, Montes Claros incluída, as placas e os cartazes em língua inglesa proliferam em abundância. Observa Manoel Hygino que “o turista de algum país da Ásia ou da Europa, ou da África ou da Oceania, ao chegar aqui, deparando tantas placas e cartazes em língua inglesa, perguntará: Que país é este?”.

            E prossegue o mestre da língua pátria: “Há de convencê-lo de que efetivamente o país que se encontra é o descoberto por Cabral, que deveria falar a língua que os lusos deixaram como herança. Língua que já causa rebuliço quando se tem de introduzir nova modificação ortográfica”.

            Além das placas e dos cartazes, dos nomes de casas ou firmas comerciais em lugar de usarmos o correspondente vocábulo em nossa língua, preferimos dizer: baby-doll, back-ground, display, drink, drive-in, flash back, happy end, hobby, jeans, jingle, joint venture, kit, leasing, know-how, spray, slogan, sofware, speech, shopping center, short, slack, scripit, set, sexy, rush e não sei quantos vocábulos ou expressões mais. Lembro-me, ainda de folklore, já aportuguesada para folclore, quando se deveria dizer populário.

            Observa Manoel Hygino que já se impõe a necessidade de um pequeno dicionário de termos ingleses, introduzidos no uso diário brasileiro. Lembra ele que estamos deixando de ser brasileiros e já esquecemos a lição de Bilac, no soneto “Língua Portuguesa”: “Última flor do Lácio, inculta e bela, / És, a um tempo, esplendor e sepultura: / Ouro nativo, que na ganga impura / A bruta mina entre os cascalhos vela... / Amo-te, ó rude e doloroso idioma. / Em que da voz materna ouvi “meu filho”, / E em que Camões chorou, no exílio amargo, / o gênio sem ventura e o amor sem brilho.”

            Transcreve Manoel Hygino, em seu oportuno artigo, um trecho de José Bento Teixeira de Salles: “Pobre língua portuguesa! Primeiro foram os galicismos que invadiram as letras brasileiras como se fossem as forças invasoras de Napoleão em suas conquistas bélicas. Agora, temos de aguentar (retirei o trema) a imposição dos anglicismos, que nos ameaçam como a fúria de Bush, tentando conquistar o Iraque e o mundo”.

            Nossos professores de português, no tempo do ginásio, lá pelos anos quarenta, combatiam os galicismos, e nós evitávamos usá-los com orgulho patriótico.

            Com certa razão o poeta José Geraldo Pires de Mello, em seu “Oficina de Soneto”, editado pela The Thesaurus, de Brasília, incluiu o “Soneto Americanalhado”. “Vou ao xópingue, compro um rotedogue / e entro no câmpingue sem ter norrau: / vendo na esquina um quite de mingau, / bebo uísque caubói e fico grogue”.

 


 Autor: Petrônio Braz
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19/01/2009
TEMPO DE POESIA



Entre o poeta em fárias

e a montanha negra

com cintilações de prata,

há quase mar de água

azulecente e amena.

Há revérberos de Monet,

no vento,

que a fluidez do estro

tímido entrevê

e a alma retrata,

ao menos em pensamento,

nesta manhã serena.

 

Em torno do poeta,

pássaros entoam

seu canto de sedução

e revoam.

Borboletas ensaiam aquarelas

e são azuis

e brancas

e amarelas.

 

Em torno do poeta,

há flores,

aromas tépidos,

mil cores!

 

Manhã ensolarada.

Uma garrafa vazia.

Início de temporada.

Colheita de poesia.


 Autor: Antônio Augusto Souto
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Que tal?

- A gente ter um espaço democrático, aberto e sem censura, para a expor nossas idéias, expressar nossos sentimentos?
- A gente emitir e compartilhar opiniões, sem sentimento de culpa, usando essa tribuna livre para criticar, aplaudir, contestar?
- A gente, com a certeza do dever cumprido, contribuir de qualquer forma pela formação das idéias, do caráter e da opinião das pessoas?
- A gente, enfim, viver a generosa dádiva da existência e sorver cada gota com o prazer indescritível de que podemos desfrutar?

Esta é, em síntese, a Certidão de Nascimento do MINASLIVRE.COM.

 
 
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