3/09/2010
OS QUATRO DO APOCALIPSE


"Os quatro cavaleiros do Apocalipse"(Foto Itamaury Teles)


Hoje eu fui à Biblioteca Pública de Belo Horizonte. Sabem quem encontrei logo na porta de entrada? ‘Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse’: Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino.

Dois deles estavam sentados num banco de madeira e estrutura em ferro e os outros se encontravam em pé. Eram esculturas em bronze, evidentemente, mas pareciam tão tranquilos; conversavam.

Ao olhar os quatro a impressão era que o autor das esculturas, Leo Santana teve o poder de congelar uma época.

Tenho minhas dúvidas se os quatro estivessem vivinhos da silva, em algum momento sentassem hoje para conversar bem naquele lugar.

Os quatro marcaram uma época e certamente teriam coisas a reclamar dos nossos tempos.

Talvez eles nem se arriscassem sair de casa com receio de atropelamento por essas ruas abarrotadas de carro e motocicleta, qual mosquitinho zunindo pelo asfalto.

Por um momento, hoje eu bati um papo surdo e mudo com eles. E teve um instante em que passou por minha cabeça a seguinte indagação: ‘será que eles imortalizados em bronze é que são os mudos, os surdos e os cegos, ou ao contrário, nós que falamos, escutamos e enxergamos’?

A minha ida à Biblioteca Pública remeteu-me a outra Biblioteca Pública, mas de Montes Claros, ali na Praça Dr. Chaves, próximo dos Correios em meados da década de 1950.

Terezinha Batista ainda não tinha o sobrenome Murça. A primeira a nascer entre os 11 filhos de dona Elvira e Zé Bitaca (ele teria feito, se vivo fosse, 107 anos de idade neste dia quatro de setembro de 2010), ela trabalhava à noite na Biblioteca Pública de Montes Claros.

Lembro-me de ter ido várias vezes com ela para servir de companhia, pois desde aquela década, século passado, ‘a presença de homem impõe mais respeito’, diziam, mesmo sendo o homem um menino de sete/oito anos de idade.

A biblioteca funcionava no andar de cima de um pequeno prédio da Praça da Matriz. Para entrar era preciso subir escadas. A partir das escadas, certos jovens da cidade aproveitavam para fazer baderna. Daí Terezinha não poder ir trabalhar sem uma companhia. Os jovens costumavam até a desligar o medidor de energia, deixando as pessoas interessadas em ler e pesquisar às escuras.

Claro, Terezinha, mais conhecida por Tê, nada podia fazer para impedir, às vezes, pequenas depredações por parte dos jovens que iam à biblioteca só com a finalidade de fazer baderna. Muito menos o menino que a acompanhava podia fazer alguma coisa.  E polícia naquela época já era raridade.

Entretanto, tudo não passava de excessos de juventude, coisas que acontecem a todas as gerações. Na ocasião, os bagunceiros colavam chicletes ou rasgavam páginas de livros e apagavam a luz. Gritavam e assobiavam. Desciam as escadas correndo. Era como um tropel de animais.

Hoje, os jovens daquela época, se vivos ainda forem, devem estar de cabelos esbranquiçados. Poderia até citar aqui alguns nomes, mas creio ser desnecessário. Se porventura alguns deles lerem este texto, poderão até dar gargalhada pela peripécia em si.

Mas a essa altura da vida já terão consciência do quanto perderam por não terem lido os belos livros de Malba Tahan (pseudônimo do matemático paulista nascido em Queluz, Júlio César de Melo e Souza), as fábulas e contos dos Irmãos Grimm; o livro ‘Robson Crusoé’, de Daniel Defoe; ou ‘Os Três Mosqueteiros’, de Alexandre Dumas; ‘Viagens de Gulliver’, de Jonathan Swift; ‘As Mais Belas Histórias’, de Lúcia Casasanta, entre muitos outros que fizeram a cabeça de gentes.

Na vida tudo passa. Assim como passaram os excessos da juventude dos ‘Quatro Cavaleiros do Apocalipse’, em Belo Horizonte. Sabino subia e descia o arco do viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte. Aventura perigosa.

Eles próprios passaram. A diferença é que os quatro construíram uma obra literária. A obra não passa. Nem passaram as imagens deles. Viraram esculturas em bronze. Ali na porta da Biblioteca Pública são como guardiões.

Queira Deus estejam livres de eventuais excessos da juventude desses tempos cibernéticos.

 


 Autor: ALBERTO SENA
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1/09/2010
POR DETRÁS DO MEU RAY BAN (31.08.2010)





Zé Amorim e o bombeiro catopê

Estamos em pleno mês de agosto, quando o vento sopra gostoso e se empinam papagaios multicoloridos, que contrastam com o céu azul-anil do sertão e fazem a alegria da garotada.

Na segunda quinzena do mês, o mesmo sopro morno de vento conduz e faz ecoar cidade afora os batuques cadenciados das caixas de percussão dos ternos de catopês, caboclinhos e das marujadas, em seus desfiles pelas ruas centrais desta cidade dos Montes Claros. Mestre Zanza reina absoluto, com seu capacete adornado de miçangas, paetês e de vistosas penas de pavão.

As ruas estreitas do centro são também enfeitadas de fitas coloridas, sinalizando que as Festas de Agosto e o Festival Folclórico começaram.

Todo ano, o ponto alto das festividades – para nós que as assistimos de camarote, ali no Café Galo – é o desfile conjunto de todos os grupos de Congado. De máquina fotográfica em punho, vamos registrando os pequenos detalhes dessa tradicional manifestação popular, que se repete há mais de 160 anos.

O que nos chama a atenção, de forma especial, é a dança dos catopês. Curioso como sou, fui pesquisar o porquê daquele bailado característico, que evoca alguns passos da capoeira, com passadas largas para os lados e, de vez em quando, pulos repentinos para trás, como se os dançantes se protegessem de um ataque de arma branca.  De fato, tal saracoteio tem relação com embate entre contendores. A explicação que obtive é que essa dança representa a luta entre os cristãos e os mouros. E, ao contrário do que se imagina, a dança dos catopês não tem origem africana, mas lembra a “Chanson de Roland” trazida pelos catequistas jesuítas.

O saudoso Zé Amorim, montes-clarense dos quatro costados, também apreciava a evolução dos catopês, ali da esquina da Cristal e do Café Galo. Só que Zé Amorim não precisava de máquina fotográfica, como eu, para registrar os detalhes da dança catopéia. Tinha uma capacidade inata de memorizar as particularidades. E, nos momentos mais oportunos, utilizava-se dos pormenores armazenados em sua prodigiosa memória para ilustrar uma conversa.   No caso dos catopês, por exemplo, lembrou-se deles fora de época, quando teve um pequeno problema hidráulico em sua residência: a torneira da pia da cozinha estava desregulada e esguichava água para todo lado, quando era aberta.

Em sua ida diária ao Café Galo, perguntou ao Jadir, entre um cafezinho e um pastel curraleiro, se conhecia um bom encanador.  Abrindo sua indefectível e velha agenda preta, abarrotada de papéis e cartões de visita, Jadir forneceu ao Zé Amorim o nome do bombeiro - Astrogildo Flores - e o telefone de favor. Dali mesmo, Zé Amorim ligou e pediu à vizinha do encanador que lhe repassasse o recado de solicitação de serviço, fornecendo-lhe seu endereço.

Depois do almoço, na hora em que o Zé fazia a sesta, toca a campainha na casa dos Amorim. Zé vai atender e encontra à porta um senhor muito bem vestido, calça engomada com vincos perfeitos, camisa de manga comprida abotoada nos punhos, sapato engraxado. Ele até achou que fosse mais um vendedor de livros, mandado pelo Daço Cabeludo para encher a sua paciência naquela sagrada hora de repouso. Mas, na dúvida, foi solícito:

            - Pois não, senhor, o que deseja?

            - Sou Astrogildo, o encanador. O senhor mandou me chamar...

Ciente de quem se tratava, Zé Amorim solicitou ao Astrogildo que entrasse e foram direto para a cozinha, onde lhe mostrou o problema a ser solucionado.            

- Essa torneira aí tá com uma pequena desregulagem. Veja aí o que pode ser feito.

O encanador se aproximou da pia e abriu a torneira de vez. Foi a conta. A água, com pressão, saía para todo lado e o Astrogildo, para não se molhar, deu um pulo pra trás. Aí é que Zé Amorim, que não identificara o encanador pela vestimenta, capitulou nervoso:

            - Pode parar. Pode parar. Bombeiro que tem medo de água e dá um pulinho pra trás feito um catopê num serve, não. Quero é um com roupa suja de graxa e com o calcanhar rachado pisando fora da sandália japonesa. Esse é que entende de torneira...

E despachou, dali mesmo, o encanador grã-fino...  

SOB A SOMBRA DO MEU PANAMÁ

REINALDO NUNES OLIVEIRA – o Reinaldinho da Emater – pede para esclarecer não ser ele o autor de e-mails criticando políticos. Nem mesmo conhece seu suposto xará...

O ASSUNTO PESQUISA ELEITORAL vem dominando as conversas em todo o Brasil. No Café Galo montes-clarense, inclusive. Para gabaritados comentaristas, os números revelados pelas pesquisas, “registradas na Justiça Eleitoral”, não resistem a uma boa análise...

O CANDIDATO HÉLIO COSTA, de certa forma, concorda com os meus comentários feitos aqui sobre o tema, na última coluna: Ele sugere que o eleitor, “mineiramente, desconfie de todas as pesquisas”...

A REVISTA VEJA, em reportagem de capa, demonstrou que certas pesquisas servem tão somente para “pescar” os indecisos, no início da corrida eleitoral.

O JORNALISTA CARLOS HEITOR CONY, em recente comentário na Folha de São Paulo, lembrava das gafes cometidos pelos institutos de pesquisas. Casos clássicos por ele citados: eleição de Juscelino Kubtischeck, que concorria com o Marechal Lott, à presidência da República; eleição de Jânio Quadros, derrotando Fernando Henrique Cardoso, à prefeitura de São Paulo. Em ambos os casos, os institutos davam como “favas contadas” a eleição dos derrotados pelas urnas.

NO CASO DO JÂNIO x FHC, ficou nos anais do folclore político a célebre imagem de Jânio pulverizando a cadeira antes indevidamente ocupada pelo Fernando Henrique antes do tempo, como se eleito já tivesse...

DILMA ROUSSEF já fala na constituição do seu Ministério. E faltam mais de 30 dias para as eleições...

PRUDÊNCIA E CALDO DE GALINHA não fazem mal a ninguém, orienta o Velho Marcelino, sábio do Rebentão dos Ferros...

CARTAS & E-MAILS

CONDENAÇÃO SUMÁRIA ATÉ QUANDO?

Itamaury: Parabéns pela matéria sobre Drª Dolores Santos, pois quem a conhece sabe que é honesta, dedicada e supercompetente. Força Drª Dolores...

Edna Santos (ednasanttos@hotmail.com – Belo Horizonte – MG

 


 Autor: Itamaury Teles
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31/08/2010
Slogans políticos 2010: “Por um mundo novo”






 

Todos sabem o que são slogans, ou pelo menos os conhecem e os repetem sem perceber. É palavra ou frase usada com frequência, em geral associada à propaganda comercial ou política, diz o Dicionário Aurélio. O slogan bom entranha no cérebro do receptor e se cola sem possibilidade de resistência. Para ser lembrada, a frase não precisa ser criativa ou inteligente. A lavagem cerebral travestida de impregnação dos sentidos é confirmada à medida que se repete o refrão do jingle político.

Numa caminhada pelo centro, em pouco tempo pode-se acumular muitas dessas frases que se pretendem audaciosas, e que têm por objetivo tirar o candidato do limbo do anonimato, jogando-o na ribalta, no grupo dos políticos discutidos, disputadores das cabeças das pesquisas de opinião.

Algumas frases do contexto eleitoral soam pretensiosas, arrogantes, prepotentes, vindas de pessoa que finge poder resolver os mais complexos problemas da nossa sociedade. O que acham de “Coragem e atitude para Minas avançar”? Aliás, para ser político, é imprescindível que haja montes de coragem. Numa democracia parece-me exagero. Outra frase diz assim: “Coragem para mudar”. Se for para pior é preciso ter muita coragem.

A “mudança” é outra figurinha dos dizeres políticos. Mesmo os candidatos continuístas não se esquecem de prometer mudanças. Indica que o ser humano não fica parado, nem num lugar, nem numa situação. É preciso mudar.

Confiar em quem vai ser votado é indispensável: “Dê seu voto de confiança”; “Meu trabalho você conhece”; “Neste eu confio”; “Credibilidade e confiança”; “Esse tem o meu voto”. E ainda, vigor e convicção no cultor de si mesmo: “Amizade e trabalho”; “É com este que eu vou”; “Eu também voto”; “ O meu voto vale”, enquanto o desfile de egos continua.

A ilusão é um sentimento difícil de explicar. É possível que muitos tenham esse sentimento em diferentes intensidades. O candidato que entra numa campanha política precisa ter por princípios: estar certo de que vai vencer; ser convicto de que é o melhor de todos; não perder tempo com humildade, a falsa e a verdadeira, como a frase desse slogan: “Humildade e competência”, ou seja, duas mentiras num só slogan.

Para alguns soam como discursos arcaicos, mas em todas as eleições essas falas estão de volta em níveis mais ou menos raivosos, pois mencionam lutas e guerras em tempo de paz: “Rumo ao socialismo”; “Salário trabalho e terra”.

      Poucos políticos confessariam, mesmo aos correligionários, que não acreditam na vitória.  Até quando os oponentes invadem seu território, anulando o poder do seu trabalho, ou ainda, quando sentem que a verba escasseou, não se atrevem a pensar, e nem ao menos dizer que a batalha está perdida.

            E o bairrismo exacerbado: “Minas no caminho certo”; “Somos Minas Gerais”; Minas a favor do Brasil”. O candidato que fosse contra o Brasil seria tão mal visto quanto alguém que confessasse ser contra a Seleção Brasileira de Futebol.

            A repetição tem por fim executar a lavagem cerebral. Entre os cinco itens mais badalados estão segurança, moradia, educação, emprego e saúde, que é a campeã. Não é para menos que dezenas de slogans a tenham em sua frase: “Saúde em primeiro lugar”; “Bom para a saúde”; “Compromisso com a saúde”; “Pra saúde seguir em frente”. Mas o que quer dizer isso? Nunca vi saúde seguindo para trás. Deve ser um novo conceito. Outros largam a saúde e vão pela vida: “Compromisso pela vida”. O bem e o mal também flutuam entre as frases: “Fazendo o bem”; “Saber fazer bem”. Não creio que algum publicitário experiente ou aprendiz ousaria contradizer esses dizeres do senso-comum.

            “Tudo pela educação”, concretizando-se a intenção, toda a estrutura eleitoral se modificaria. Voto não obrigatório leva mais gente letrada às urnas ou o contrário?  Há as pesquisas e confio nelas, mas, sabendo de décadas, que a tendência inicial das urnas não costuma mudar, ainda assim é bom contar os votos antes de estourar os rojões.

Dentre as pretensões deslavadas, para não dizer puro esnobismo está a frase: “Esse faz a diferença”.  Caso ganhe, fará a diferença sim, mas para si próprio. Entre os 135 milhões de eleitores, considerar-se único é ser megalomaníaco. Mas, imaginemos um candidato a Presidente da República sincero, que queira de fato ser presidente, mas não se considera grande coisa, acreditando que muitos outros estão ao seu nível ou acima dele. Como seriam os discursos dessa campanha?

           Após militar na política por 25 anos, convicta das questões ideológicas, fazendo currículo de candidatos, discursos, cartilhas, textos, slogans, símbolos, letras de jingle, pescando votos em todos os bairros, desfraldando bandeiras, vestindo camisetas, fazendo arrastões, e usando argumentações conforme a platéia, o trabalho foi suspenso há cinco anos. Por fim e gratuitamente ofereço duas conclusões: para cada dez votos prometidos sob juramento, contabilize um. E embora os políticos gozem de péssima fama entre os brasileiros afirmo: mais falsos do que os políticos, só mesmo os eleitores. Afirmo e dou fé.

      Mara Narciso* é médica, jornalista e autora do livro “Segurando a Hiperatividade” – 26 de agosto de 2010.


 Autor: Mara Narciso*
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31/08/2010
Agregados





 

Não se passaram cem anos , mas olhando as minhas férias na fazenda do meu tio-avô Indalício Narciso , reflito que já não se fazem trabalhos escravos em fazendas como antigamente . Final da década de 1960, bem perto da cidade, cerca de seis quilômetros, ficava uma fazendola de nome Aliança , onde havia uma casa rústica e pobre , a principal , de chão de tijolos , sem água encanada, sem banheiro , sem luz e de móveis velhos e toscos. A água de beber ficava em potes de barro , onde a meninada metia a mão com uma caneca maior de alumínio e tirava o necessário. O banho era em bacias , e as necessidades feitas no mato e à noite em pinicos ou latas . Ao escurecer acendiam-se lamparinas de querosene. Atrás da casa ficava um pomar plenamente coberto de mangueiras maravilhosas que davam tantas mangas que poderiam ser levadas em carretas . Mais adiante uma lagoa e depois um rio estreito que se interrompia na seca . As crianças amavam ir para aquele lugar , andar a cavalo , brincar no mato , procurar ninho de passarinho , pegar piabas , nadar no rio , fazer cabanas , catar pedras de quartzo, catar araçás e colecionar borboletas . Ninguém imaginava que a natureza tinha um limite de extração, e quanto a isso não existia qualquer repressão.

A Aliança produzia em certos períodos milho , arroz, feijão, farinha de mandioca , beiju , garapa de cana , rapadura , leite , queijo , carne de porco , galinhas , e ovos quase que apenas para a subsistência . Alguma coisa, como farinha, por exemplo, na época de jovem, meu tio Indalício levava para vender na feira do mercado. As pessoas que trabalhavam lá eram as mais miseráveis que eu já vi na vida . Não tinham salário , nem nada possuíam. A cada sábado recebiam um pouco de feijão , arroz , farinha , gordura , café e açúcar . Nunca os vi recebendo dinheiro e sim uma feira irrisória. Eram chamados “ agregados ” e moravam em casas de adobe espalhadas pela propriedade . Não eram rebocadas, o piso era de terra batida , a cobertura de telhas desalinhadas caindo aos pedaços , não havia móveis e apenas um catre de quatro paus enfiados no chão com uma treliça improvisada sobre ela fazendo às vezes de cama , com um pano de saco usado sobre o capim que era o colchão . Nada de cobertas ou travesseiros . Na cozinha um amontoado de tijolos fingia ser o fogão de lenha , onde algumas latas de flandres pretas de carvão eram as panelas . Por um acaso poderia ter uma ou outra panela de ferro. Os pratos de alumínio esmaltado com os pedaços arrancados de tão gastos e os garfos e colheres ordinários e tortos completavam os utensílios desses brasileiros. Roupas não havia, apenas trapos sujos sobre os corpos sem banho . Mas tinham meninos a granel , numa considerável quantidade . Juntavam-se um homem e uma mulher e em pouco tempo aparecia um montão de crianças para passar fome .

Os vaqueiros que eram solteiros dormiam no chão sobre a metade de um couro de boi na casa da roda , e algumas noites , depois de mais de doze horas de trabalho , sentavam em tamboretes para tocar violão e cantar . Ali também não havia chuveiro , sanitários , e nem panos para embrulhar nem nada . Andrajos sobre o corpo , não entendia como suportavam ficar lá , pois a quantidade de pulgas que subiam nas pernas tornava um desafio permanecer minutos por lá, ainda mais dormir . Nos últimos tempos eram umas quinze pessoas trabalhando nessa situação . Lembrando delas, acho estranho que não se rebelassem e até eram muito amigas do meu tio Indalício que freqüentava as suas casas ; ficava na porta sentado em uma tora grossa de pau e tomava café com eles, nos copos de lata com alças . Meu tio-avô era como um deles no vestir e no modo simples de ser .

Quando já idoso , meu tio Indalício mudou-se para a sua casa na cidade , no mesmo estilo da sua fazenda , que foi vendida para dois dos seus sobrinhos. Parte da negociação dizia que os empregados seriam indenizados com casas na cidade e de fato o foram. Cada qual recebeu sua moradia e algum dinheiro . Atualmente, dos três que me lembro, um deles trabalha como carroceiro , outro coordena um grupo de catopês e tornou-se mestre , e ainda outro coordena o setor de asfalto da cidade . Mereciam mais, pois prestaram serviços por anos, de modo informal e não registrado. Em comparação ao que eram, a mudança para a cidade foi a revolução que fizeram. Tudo correu conforme a lei, mas, ainda assim a indenização pode não ter sido justa.

Mara Narciso / agosto 2006


 Autor: Mara Narciso
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30/08/2010
VAMOS À FAZENDA DE IDALÍCIO





Bom mesmo era quando pai falava: ‘amanhã, nós vamos à fazenda ‘Aliança’, de Idalício`. Nem aguentava esperar o dia seguinte chegar para ir a pé à fazenda ‘Aliança’, de Idalício. Ia dormir cedo que era para a noite passar rápido e o dia seguinte chegar logo.

Bem cedinho, aos primeiros clarões do dia, pai acordava e chamava para tomar café. Depois, pé no caminho. A fazenda de Idalício era longe. Tínhamos de andar muito debaixo do sol causticante de Montes Claros.

Outro dia, conversava com o advogado e ex-deputado federal Genival Tourinho, o que denunciou a ‘Operação Cristal’, na ditadura militar, e ele me disse que a fazenda ainda existe. Gostei de ouvir a informação, porque conservo boas lembranças daquele lugar.

Idalício era irmão de Petronilho Narciso. Petronilho era compadre de pai e morava na Rua Carlos Pereira. Era pai – entre outros – de Pedro, Chiquito, Maria Inês, Petronilho Narciso Jr. Este último, era menino de sete/oito anos de idade, regulava comigo. Éramos, inclusive, colegas de sala no Grupo Escolar Gonçalves Chaves, ali na Praça Dr. João Alves.

Três imagens me vêm à cabeça ao me lembrar das vezes em que fomos a pé à fazenda ‘Aliança’, de Idalício, meados da década de 1950.

Imagem 1: Chegávamos, e de longe vimos algumas pessoas na frente da sede da fazenda. Ficamos pensando ‘o que será que aconteceu?’ e quando nos aproximamos mais vimos: o capataz da fazenda havia matado a pau uma cobra enorme e a estendera no arame da cerca. Exibia-a como troféu. Ficamos impressionados, parecia que em todo canto da fazenda tinha cobra e era um perigo andar por ali sozinho.

Imagem 2: nos fundos da sede da fazenda havia um grande pomar, cheio de pés de manga. Na safra, era tanta manga que ninguém dava conta. Virava lama debaixo das mangueiras. As pessoas derrubavam manga de todo jeito: na vara, na pedrada ou na mangada, quer dizer, atiravam manga verde para derrubar manga madura.

De repente, ouviu-se um tiro. Era de espingarda ‘chumbeira’ do capataz, que a disparou para o alto contra um bando de maitacas que passava fazendo ‘krec’, ‘krec’, ‘krec’.

Duas delas caíram aos nossos pés. Agonizavam. Uma delas ficou comigo. A outra ficou com Maria Inês. E ela exibia a maitaca, quando um dos cachorros da fazenda avançou na mão dela e a arrebatou. A menina chorou. Não sei se de susto ou porque perdera a maitaca para o cachorro.

Imagem 3: era de manhã e voltávamos da fazenda `Aliança`, de Idalício. Pai, Petronilho (filho) e eu. Era uma trilha em meio a arbustos com grandes árvores dos lados, mas bem afastadas.

Pai levava uma maleta na mão.

Na copa da árvore mais alta, vimos uma ave enorme. Devia ser um gavião. Exibia o peito esbranquiçado.

Pai colocou a maleta no chão. Abriu-a. Retirou de dentro dela uma espingarda desmontada. Montou-a. E em seguida carregou-a. Levou a espingarda à altura do ombro e fez mira contra a ave posada na copa da árvore.

Para mim, tudo aquilo era novidade: nem sabia que pai tinha espingarda. Fiquei estático. Torcia em silencio para que o gavião percebesse as intenções de pai.

O cano da arma estava apontado para o bicho.

Eu rezava. Pedia a Deus para fazer a ave voar.

E parece que Deus atendeu porque antes de pai disparar o gatilho a ave bateu asas e voou. Voou em círculos. Sumiu das vistas.

Pai retirou as balas da espingarda. Desmontou-a. Em seguida guardou-a na maleta. E seguimos viagem, a pé, de volta a Montes Claros.

Em casa, ao chegarmos, mãe, como sempre fazia, encheu uma bacia com água morna, pôs um punhado de sal, e o menino tomou ‘um banho de sal’.

Segundo mãe, era para ‘descansar as pernas’, porque a fazenda ‘Aliança’, de Idalício, era longe.

Na cabeça do menino, alheio ao tempo, era preciso andar horas e mais horas para chegar à fazenda ‘Aliança’, de Idalício, hoje dentro do perímetro urbano de Montes Claros.           


 Autor: ALBERTO SENA
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28/08/2010
POR DETRÁS DO MEU RAY BAN (28.08.2010)





Depilando perereca

Recebi uma mensagem, via internet, que me fez rolar de rir. É um riso meio de forca, meio sádico, vá lá. Mas não há como contê-lo, ao ler o hilário relato de uma mulher que decide fazer uma torturante depilação cavada na virilha e cercanias, “por livre e espontânea pressão” das amigas, para agradar o namorado.

Como não gosto de rir sozinho, resolvi compartilhar com meus leitores o primor de um relato, recontando-o e escoimando-o de palavras impublicáveis, embora apropriadas para uma situação de quase tortura medieval, à base de cera quente.

Chegado o dia previamente agendado, nossa personagem colocou calcinha apresentável e roupas bonitas, para ficar chique, e lá se foi...

Após permanecer na sala de espera por um bom tempo, entrou num longo corredor. De um lado, a parede e, do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas, ouviam-se gemidos, gritos e conversas. Uma mistura de "Calígula" com "O Albergue", segundo ela, que já sentia um frio na barriga ali mesmo.  Tirou a calça e, timidamente, ficou lá estirada de calcinha na maca, num daqueles cubículos.

Como queria depilação bem cavada, a atendente a deixou com a calcinha tapando apenas uma fina faixa da Abigail - nome carinhoso que dava ao seu órgão sexual.

A atendente a pede para abrir as pernas “que nem borboleta”. Ela não entende, e logo recebe instruções precisas: “dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado”...

- Arreganhada, né?

A atendente sorri e passa a primeira camada de cera quente naquela virilha virgem. No relato, ela conta que “estava gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar. Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele do meu corpo tivesse saído. Que apenas a minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar. Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar aquela infeliz depiladora.”

- Quer que tire dos lábios?

- Não, eu quero só virilha, bigode não – respondeu.

Mal sabia a pobre coitada que os lábios eram outros, os da “perseguida” Abigail...

Vencida pelo convincente argumento de que “quem está na maca, tem que sofrer mesmo”, ela topou.

Ao conferir a “Abigail” de perto, a depiladora nota que há alguns pelinhos e cabelos encravados e resolve pinçá-los.

- Pode pinçar – autoriza a coitada –, tá tudo dormente, mesmo. Num tô sentindo nada!

Mas ela estava enganada. Sentiu cada picadinha daquela pinça arrancando cabelinhos resistentes da pele já dolorida. Mas o pior estava por vir...

- Vamos ficar de lado agora, pra fazer a parte cavada?

Ela obedeceu e deitou “de ladinho” e ficou esperando novas ordens.
- Segura sua bunda aqui. Puxa essa banda aqui de cima, pra afastar da outra banda.

Ela disse que teve vontade de chorar. Não podia ver o que a depiladora via, mas certamente estava de cara para ele, o olho que nada vê... E ficou imaginando quantos haviam visto aquela cena, à luz do dia. Nem sua ginecologista! Quis chorar, gritar, soltar sonoros flatos na cara daquela infeliz depiladora, para envenená-la...
Enquanto ela matutava, a depiladora puxou a cera. Pensou que “a bunda toda tivesse ido embora e não ficara nem uma preguinha para contar a história”. O que lhe restou como possibilidade foi morder o travesseiro e grunhir “sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto...” – relata.
- Vira agora do outro lado – ordenou a depiladora.

Ela virou e segurou instintivamente a outra bandinha. Apenas uma lágrima solitária escorreu de seus olhos. Era dor demais, vergonha demais. E ali mesmo deliberou virar feminista, morrer peluda, protestar, fazer passeatas, criar uma lei anti-depilação cavada.

Mas logo se esqueceu. Talvez porque as amigas tivessem razão no vaticínio: seu namorado gostou...

SOB A SOMBRA DO MEU PANAMÁ

O ESPORTE MAIS PRATICADO no Jardim São Luiz  tem sido o tênis virtual.  Isso porque o bairro foi tomado de assalto pelas muriçocas. As raquetes eletrificadas – facilmente encontradas nos camelôs – têm  sido utilizadas durante as novelas e  ao longo das noites mal dormidas, para matar os sonoros e pestilentos insetos. E eu que havia aposentado o meu velho cortinado... Lembrança dele só restou o gancho preso no meio do teto.

INFORMAÇÕES CHEGADAS À COLUNA dão conta de que o carro do fumacê, bastante eficaz no combate às muriçocas,  só tem circulado pelo Bairro Ibituruna. Por quê?

QUEM PASSA PELA PRAÇA DOS JATOBÁS já pode ver a montagem das arquibancadas para mais um Carnamontes – o carnaval temporão da cidade...

VOCÊ JÁ FOI ENTREVISTADO por algum instituto de pesquisa? Conhece alguém?

ESTOU CADA VEZ MAIS CONVENCIDO da verdade contida na máxima italiana, segundo a qual “há mentiras, grandes mentiras e estatísticas...”

CORRE NA INTERNET volumoso documento colocando em dúvida o resultado das pesquisas eleitorais no Brasil. Muitas barbas – sem qualquer alusão específica - estão de molho...

CARTAS & E-MAILS

Causos médicos: predições, pálpebras e paquetes

Excelentes os causos, meu caro Itamaury! Você me lembra o Olavo Romano narrando esse interior de Minas tão rico em histórias inusitadas. Abraço. Paz e bem. José Cláudio (Belo Horizonte – MG).

Resposta: Obrigado, José Cláudio. É uma honra para mim ser comparado ao grande Olavo Romano...

 

 


 Autor: Itamaury Teles
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25/08/2010
O BISNETO DO GRANDE BABIECA



 

 

 

Quando chegava dezembro é que era bom! Aliás, não sei se todos já repararam, mas Montes Claros ainda hoje fica boa é quando o mês de dezembro chega.

É porque sempre se tem a esperança de que chova o suficiente para fertilizar a terra, garantir o feijão de amanhã e as pastagens para o gado, e é então que o mercado fica ‘cheínho’ de frutas. É da melhor qualidade o Mercado Municipal de Montes claros.

Vamos pela ordem: primeiro vem o pequi, depois o umbu, o cajá-manga, a pitomba, a cagaita e a manga. Manga ‘comum’, manga ‘espada’, manga ‘carlota’, manga ‘ubá’, manga ‘coquinho’, manda ‘rosa’ etc. É manga que não acaba mais.

Aliás, acaba. A safra de manga é rápida. Começa ali pelo final de novembro e vai até pelo início de fevereiro, se muito.

Mas quem quiser chupar manga fora de época pode fazê-lo porque os pomares irrigados dão frutos o ano inteiro. São os milagres da água. Ainda não há variedade, mas é possível chupar manga ‘haden’, essas mangonas encontradas em ‘sacolões’.

Tudo que foi escrito até aqui foi para lembrar o tempo de chupar mangas do tipo ‘comum’, como são conhecidas aí em Montes Claros, porque aqui são chamadas de ‘sapatinho’, um nome apropriado, porque de fato elas se parecem com sapatinho de recém-nascido.

Mas quando esse tempo chegava e morávamos na Rua São Francisco, o pé de manga era a nossa segunda casa. Chupávamos mangas até ficarmos com a barriga deste tamanho! Os caroços nós íamos jogando pelo quintal mesmo, porque depois teriam serventia quando terminado o tempo de chupar mangas.

Aqui pra nós, no particular: sempre achei que lá no paraíso as pessoas têm mangas à vontade. Muita gente fica o dia inteiro chupando mangas, lambuzando o rosto e as mãos. Mangas são dádivas, além de ricas em vitaminas.

Segundo os mais empedernidos nutricionistas, na manga podemos encontrar um bom teor de carboidratos, betacaroteno (provitamina A), vitamina C, vitaminas do complexo B, ferro, fósforo, cálcio, potássio e zinco.

Então, depois de chupada a última manga do pé, aquela que estava lá no topo, no galho mais fino, e que só podia ser vista de longe, porque estava em ponto, digamos, quase inacessível, então começava outro tempo.

Tempo de imitar o que víamos nos filmes de caubóis estadunidenses.

A essa altura os caroços de mangas chupados estavam secos. Cada um catava a quantidade que podia até ficar com os braços tomados e buscava o melhor esconderijo no meio de um mar de sabugueiros que se alastrava pelo quintal.

Era o tempo da ‘guerra’. Dividíamos em grupos e a um sinal previamente combinado, caroços secos iam e vinham cortando os ares, do jeitinho como acontece hoje em dia, nas guerras de verdade, mísseis indo e vindo. É isso que dá enfiar dentro da cabeça de crianças maus exemplos.

A tropa era constituída de uma plêiade de meninos e meninas como: Célia, Lúcia, Wanda, Tone, Rubens e Magela, os dois últimos primos, e, claro, este que registra para a posteridade o tempo em que as crianças viviam em quintais e criavam os próprios brinquedos.

Mas desde aquele tempo (antes até), o ‘Tio Sam’ espargia o germe bélico do seu estilo ao nos enviar filmes cheios de tiros disparados por Roy Rogers, Rock Lane, Rex Alen, além de outros.

E por falar em Roy Rogers, dia desses o cavalo dele, Trigger, empalhado ao morrer, foi leiloado. Era o primeiro dos 300 itens relacionados a Roy Rogers (1911-1998) e sua mulher, Dale Evans.

O cavalo foi arrematado por US$ 386.500. O preço de um belo apartamento.

Ninguém disse, mas é possível que o caubói estadunidense quisesse imortalizar Trigger, como Rocinante o foi nos versos ‘Del Donoso, poeta entreverado, a Sancho Pança e Rocinante’, o cavalo de Dom Quixote.

Ele, Rocinante, que era bisneto do grande Babieca. Cavalo de El Cid, herói espanhol.


 Autor: ALBERTO SENA
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21/08/2010
O MUNDO SEM NINGUÉM



Se olharmos pelo espelho retrovisor, veremos o quanto o desenvolvimento humano sobre a Terra se deu a qualquer preço, sem planejamento. Daí o mundo inteiro sofrer hoje as consequências da irresponsabilidade em muitos casos e da ignorância em outros tantos momentos. Agora, ao olharmos pelo espelho retrovisor, estamos tomando consciência dos estragos.

Mas não é preciso ir longe para darmos conta do que podem fazer as mãos cheias de dedos dos homens e das mulheres. Desde as décadas de 1970 / 80, quando em intensa atividade na imprensa escrita, vimos chamando a atenção para os sinais de desertificação verificados no Norte e Noroeste de Minas, nas regiões de Montes Claros, Três Marias, Paracatu e João Pinheiro.

Quatro décadas se passaram. Neste agosto de 2010, a mídia nacional e internacional publica manchetes do tipo ‘Desertificação pode aumentar conflitos por terra’, segundo alerta da Organização das Nações Unidas (ONU). Ban Ki-Moon, secretário-geral da ONU, disse que a degradação da terra ‘pode gerar conflitos e aumentar tensões’, além do que acarreta custos sociais cada vez maiores.

Ele fez o alerta em comunicado, por ocasião do lançamento da ‘Década das Nações Unidas para os Desertos e a Luta contra a Desertificação – 2010-2020’.

Outra espiada no espelho retrovisor mostra o quanto temos sido imprevidentes, e em se tratando de algo tão importante, como o ambiente onde vivemos, metemos as mãos, não nos importando as consequências. Mas quando o futuro chegar – e o futuro chegou vemo-nos agora envolvidos pelos reveses do problema, tentamos correr contra o prejuízo.

Um pequeno rol de problemas ambientais causados pela ganância, pela ignorância e pela falta de educação de muitos começa com o mau uso da terra e da água na agropecuária em Minas, para ficar só na abrangência da nossa aldeia. Isto mais a devastação da Mata Atlântica e do Cerrado para alimentar os fornos das siderúrgicas; o excessivo plantio de monoculturas de eucalipto (e outras monoculturas) sem o menor respeito à vocação e a heterogeneidade florestal das regiões.

É difícil de acreditar: nós, seres humanos, ditos racionais, seremos estúpidos até o fim ao ponto de tornarmos a casa onde nós moramos – e até mesmo os principais responsáveis pela degradação do planeta moram – será que seremos estúpidos ao ponto de torná-la imprópria para a vida?

O secretário geral da ONU informa: mais de dois bilhões de pessoas vivem em desertos e terras secas em todo o mundo. A degradação da terra em zonas áridas afeta a 3,6 bilhões de hectares e ameaça a subsistência de mais de um bilhão de pessoas em cerca de cem países.

A humanidade vive diante de uma encruzilhada: ou planeja o desenvolvimento de modo sustentável, entendendo a terra, os ares e as águas dos rios e dos mares como bens preciosos; ou em breve aquele seriado da TV intitulado ‘O mundo sem ninguém’ será uma realidade nua e crua. Mais crua do que menos nua.

 

 


 Autor: ALBERTO SENA
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21/08/2010
POR DETRÁS DO MEU RAY BAN (21.08.2010)


Legenda: No lançamento do “Doce prejuízo” em Belo Horizonte, a presença dos amigos Gérson Duarte, este jornalista, Dimas Figueiredo e Dolor Santos (Foto Maguy De Caux)


URGE REPENSAR AS FESTAS DE AGOSTO

O fechamento de ruas centrais, durante o Festival Folclórico de Montes Claros, passa da hora de ser repensado, tal o transtorno que causa ao fluxo de veículos, tumultuando ainda mais o já conturbado espaço.

Já fizemos comentários daqui, neste sentido, faz três anos. De lá pra cá, a situação se complicou ainda mais, pelo grande incremento no número de veículos, o que torna o hipercentro da cidade intransitável mesmo em dias normais.

Afora esse aspecto, durante as chamadas Festas de Agosto a cidade recebe bom número de visitantes, constituído basicamente por montes-clarenses que residem noutras cidades, que retornam para os tradicionais festejos.

Assim, urge seja tomada medida para evitar novas ocorrências da espécie. Ou transferindo-se os festejos para local que afete menos o dia-a-dia da cidade, ou fechando de vez o centro para o trânsito de veículos. Na primeira hipótese, poder-se-ia pensar na parte velha da cidade, no entorno da Praça da Matriz, utilizando-se de estacionamentos na região para abrigar as barraquinhas. Na segunda, apressar a implementação das ideias trazidas pelo arquiteto e urbanista Jaime Lerner.

O que não pode é ficar como está...

AGREDINDO A TRADIÇÃO

Em ano eleitoral, é normal que haja pessoas portando bandeiras e estandartes de candidatos pelas ruas da cidade. O que não se pode admitir é que esses indivíduos se arvorem no direito de bagunçar uma festa tradicional, como a dos catopês, travestindo-se como eles e dançando na frente e atrás dos cortejos, balançando estandartes e bandeiras dos seus candidatos.

Ao contrário do que possam imaginar os marqueteiros de plantão, tal agressão é levada em conta pelos eleitores, que não se esquecem daqueles que desrespeitam suas tradições...

SOB A SOMBRA DO MEU PANAMÁ

CLÍNICA DE RADIOTERAPIA é nova obra que a Santa Casa de Montes Claros inicia, em solenidade na próxima segunda-feira, 23, às 17 horas, na Avenida Mestra Fininha, 621 (no antigo prédio do laboratório). Agradeço ao provedor Heli Penido pelo convite enviado.

UMA NOVA MATÉRIA-PRIMA vem sendo utilizada no Rio de Janeiro, em uma usina de biodiesel: cocô. Isso mesmo, senhores, o excremento humano. Saiu ontem, na coluna do Ancelmo Góis, em O Globo.

COMO A USINA DE BIODIESEL NA CIDADE  vem trazendo matéria-prima de longe, se a moda pega, com poucos ajustes poderia reduzir seu déficit, utilizando-se de insumo totalmente local/regional, e contribuindo para a melhoria do nosso meio-ambiente...

ESTÁ EM FASE ADIATADA o processo de autorização da ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil – para os voos da GOL em nosso aeroporto. Com isso, Montes Claros voltará a integrar-se efetivamente aos grandes aeroportos do país, viabilizando viagens nacionais e internacionais...

SEXTO ENCONTRO ESPÍRITA realiza-se em Porteirinha. Iniciado na noite da última sexta, será concluído neste sábado, das 14 às 17 horas, no Centro Cultural Anísio Santos.

GANHEI TRÊS LIVROS RAROS ESTA SEMANA. Um, de autoria de Saul Martins, intitulado “Antônio Dó”, presente do escritor Ronaldo José de Almeida. Os outros dois foram-me mandados pelo Dimas Figueiredo, ex-colega de Escola Normal e hoje industrial em Belo Horizonte: “Foiceiros e vaqueiros”, de Nélson Viana; e “A alma encantadora das ruas”, de João do Rio. Terei boa leitura, por alguns dias. Obrigado, amigos...

CARTAS & E-MAILS

AGRADECIMENTO

Itamaury: Fiquei super feliz com o prêmio [livro “Doce prejuízo”, por acertar o Teste da Semana]. Como você sabe, acompanho seu trabalho com muita atenção. Em alguns casos, sinto que estou presente, seja em Porteirinha ou em Jequitaí. Volta e meia meu irmão de São Paulo liga só prá comentar alguma história dos seus livros. Aí ficamos pagando impulsos e rindo feito dois tolos de Jequitaí. Aliás, precisamos encontrar para eu contar algumas histórias de minha terra; tenho certeza que você vai morrer de rir. É que lá tem gente mais engraçada que Porteirinha e Montes Claros juntas.
Peça desculpas ao amigo Jadir pelo comentário indelicado sobre suas "pequenas" orelhas. Ao contrário do que possa parecer, demonstra inteligência, ouve-se melhor e dizem que pessoas com essas características vivem muito. Um grande abraço.

Gerson Duarte (Gerson-duarte@ig.com.br – Belo Horizonte – MG)

Resposta: Agradeço-lhe pela mensagem, Gerson. Fiquei de cá curioso para saber das suas histórias jequitaienses... Na próxima vez que eu for à Capital, marcaremos um dedo de prosa, com certeza. Sobre as “pequenas precatas” do Jadir, acho que você tem razão: demonstra inteligência, mesmo. Como tal, ele não se importou, nem um pouco, com seus comentários. Riu, até...

 


 Autor: Itamaury Teles
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20/08/2010
Um musical para aplaudir de pé



 

 

            O espetáculo estava marcado para as 19h30min. Antes do horário havia um grupo ordeiro que se aglomerava em frente ao Espaço OAB Eventos. Pessoas bem vestidas falavam a meia-voz. Na hora combinada, as portas se abriram, e lentamente os espectadores tomaram os seus lugares no salão discretamente decorado. Em pouco tempo as cadeiras estavam tomadas. Quando a apresentadora iniciou a sua fala, todos já estavam em seus lugares.

Durante o concerto de uma hora e meia houve a participação atenta da platéia, que aplaudia ao final de cada número, não conversava nos intervalos, estando inteiramente alerta em relação ao próximo número musical. Não se ouviu nenhum celular tocando ou sendo atendido. Após o número final de dança, a vibração atingiu seu ápice, com todos de pé aplaudindo freneticamente e pedindo bis. Os artistas cederam a essa pressão, chegaram à beira do palco de mãos dadas, menearam a cabeça e após breves palavras, generosamente repetiram o último número. Estamos num país estrangeiro? Não. Acaba de ser encenado em Montes Claros o concerto “Uma noite na Broadway”, que faz parte do programa “Estações Musicais na Unimontes”.

            Talitha Peres, pianista, professora e mestre, que tem lugar garantido nos mais badalados palcos de música erudita do mundo, e obviamente também no Brasil, foi impecável, desde a concepção, passando pelo planejamento, até a execução desse concerto. Montes-clarense cujo currículo musical atingiu todas as esferas tem uma competência para a qual, sendo admiradora, não consigo ir com palavras, além do que se pode dizer quem aprecia com enlevo e encantamento o som miraculoso do seu piano.

            Entre outras habilidades, ela é uma estudiosa de Chiquinha Gonzaga e, tempos atrás, gravou um magnífico CD com músicas da maestrina pioneira, interpretados com uma vibração possível de ser notada até pelos não iniciados como eu. Desbravei e consegui um exemplar desse disco, e assim pude usufruir da música dessas duas grandes mulheres. Não faço favor nenhum em dar a elas oferendas de fã.

            Quando chegou o convite do musical, cuja entrada seria franca, com todo o conforto do local escolhido, estava disposta a ir de qualquer jeito, e lá encontrei pessoas conhecidas, atentas e felizes, que não deixavam escapar nenhum detalhe, do figurino às músicas americanas, cantadas por barítonos, tenores e sopranos.

            Observei cada movimento no palco, aprendendo as características dos compositores que apareciam num telão, assim como o nome dos 12 cantores que se apresentaram: Cristiane Franco, Patrícia Peres, Roberto Mont’Sá, Aparecida Soares, Maria Odília Quadros, Fagner Cardoso, Késia Patrícia, Ana Luiza Gomes, André Rabello, Mel Callado, Mariane Ribeiro e Edna Gomes.

Houve um dueto emocionante entre a mezzo-soprano Maria Odília Quadros e o barítono André Rabelo. Após alguns números musicais formais, houve uma mudança radical no espetáculo, sendo apresentadas duas músicas do ABBA, “Dancing Queen” e “Mamma Mia”, da década de 70, com coreografia rápida e solta. Adiante, a música se tornou dramática com “Don’t cry for me Argentina”, cantada por Ana Luiza Gomes. Foi teatral na medida em que não resisti e chorei. Outra apresentação voltou a me tirar lágrimas. Foi a música “So in Love” com a mezzo-soprano Patrícia Peres e Ananias Neto, na clarineta. Não resisto ao tom choroso de um instrumento de sopro. É pura emoção.

            Quando começou a apresentação final da dança “Jesus Christ Superstar”, com o tenor Fagner Cardoso no solo, aconteceu a apoteose. A platéia participou batendo palmas, numa interação emocional que envolveu até mesmo os cantores. Aplaudindo de pé, não estávamos na Broadway, mas era como se fosse, pois os artistas repetiram o último número para os comportados espectadores, enquanto Talitha Peres desmanchava o piano, de uma maneira muito além do impossível.

*Mara Narciso é médica, jornalista e autora do livro “Segurando a Hiperatividade” – 19 de agosto de 2010

 


 Autor: Mara Narciso*
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19/08/2010
NO TEMPO DOS QUINTAIS



Houve um tempo, em Montes claros, que quase toda casa tinha quintal. Mas depois, muito depois, os quintais, um a um, foram desaparecendo porque a cidade não aguentou segurar a vocação para o crescimento.

Quando quase toda casa tinha quintal, a família morava na Rua São Francisco, próximo da casa de ‘dona Geralda do ‘seu’ Nilo’, quase esquina de Rua Corrêa Machado, a 50 metros da casa da escritora Amelina Chaves, mãe de Roldão.

Todos situaram o lugar? Pois bem, a família morava numa casa em estilo colonial, com portas e janelas altas, telhado sem forro. Uma casa de quatro quartos, cinco com mais um nos fundos, contíguo da cozinha. E um quintal mágico, grande. Ia dar nas proximidades da linha férrea.

O quintal tinha um pé de urucum, perto da porta da cozinha. Para dona Elvira, era ‘uma mão na roda’ quando precisava de urucum. Saía da cozinha, dava meia dúzia de passos e colhia-o.

Logo atrás da casa havia um coqueiro macaúbas, com espinhos enormes. Abaixo havia um pé de manga ‘coquinho’ e lá embaixo, próximo da cerca onde cresciam buchas, da família das cucurbitáceas, cujo nome científico é luffacylindrica, havia um pé de manga ‘comum’, aqui nesses píncaros chamada de manga ‘sapatinho’ (a mais saborosa).

Como puderam ver, era uma casa com quintal gostoso, bom para a meninada praticar a arte de brincar. O trem de ferro da Central do Brasil passava lá no fundo e isto era atração à parte. E de lambuja, na frente da casa, recuada em relação ao alinhamento da rua, tinha uma área de terra onde se podia – vejam bem – jogar bolinha de gude e finca, no período das águas.

Mas me deixem emendar nisto o fato de que tínhamos um tio chamado Abel, Abel Sena Leite. Era pai de Berenice (Nice), Marlene, Filomena, Clarisse, Mário, Saul, Adalberto, Marisa, Sílvia, Renato, Fernando, Eduardo, 12 ao todo, filhos da bondosa tia Maria Fialho.

Um detalhe fundamental: tio Abel, irmão de mãe, Elvira, era um homem alegre. Dava gargalhadas à toa às vezes. Era brincalhão.

Ele sempre ia nos visitar de surpresa. Entrava de supetão e batia ao mesmo tempo nas janelas e nas portas nos assustando e quando corríamos para ver o que estava acontecendo víamos ele se dobrando em boa gargalhada. Era assim, o tio. Grande figura!

Fora mestre de obras e nós tínhamos orgulho dele – ‘ajudou a construir a Catedral de Nossa Senhora Aparecida, de Montes Claros, de cem metros de altura’, diziam.

Numa vez, tio Abel chegou de surpresa, mas nem imaginava a surpresa que o aguardava. Todos estavam ali no quintal debaixo, do pé de urucum. Como sempre, ele contava alguma piada, nos divertindo.

De repente, ao vivo e em cores, eis que surge um macaco – isto mesmo, um macaco.

Saltou o muro atrás do pé de urucum.

Foi um salto incrível. Pegou todos de surpresa. O macaco fez o que fazem os atletas de Olimpíada no ‘cavalo com alças’. Pôs uma das mãos no muro e pulou quase caindo sobre nós.

O macaco assustou conosco tanto quanto nós assustamos com a inesperada visita dele.

Nunca tínhamos visto um bicho tão diferente. Os pelos dele eram vermelhos. Tinha mais ou menos o tamanho de uma criança de três anos.

Ele se estacou diante de nós, e a primeira pessoa a agir foi a irmã Célia, na ocasião, adolescente. Ela partiu para cima do macaco, repetindo:

__ É meu! É meu! É meu!

Só que o bicho, literalmente, era macaco velho. Arreganhou os dentes para Célia numa ferocidade ameaçadora, ao que o tio Abel catou rapidamente do lado um pau e partiu na direção do macaco, que, bobo não foi de ficar esperando o que poderia acontecê-lo.

Assim como chegou, de surpresa, rápido, assim o macaco desapareceu em meio aos arbustos de sabugueiro do quintal, saltou a cerca e sumiu das nossas vistas.

Mas permaneceu gravado na memória, para ser lembrado agora como história de criança.

Para homenagear a memória do tio Abel.

Para relembrar a nossa infância em Montes Claros.

Para saudar os irmãos Tone, Wanda e Lúcia (ela faz aniversário neste 22 de  agosto) testemunhas oculares dos fatos.

E para agradecer a Deus, in memorian, por nos ter dado Célia, ‘a Rock Lane’, heroína das nossas brincadeiras de caubóis.  


 Autor: ALBERTO SENA
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17/08/2010
POR DETRÁS DO MEU RAY BAN (17.08.2010)





Levantamento de mastro

As festas juninas são uma tradição milenar. No Norte de Minas essa tradição se mantém viva, com festas em homenagem a Santo Antônio, São Pedro e São João.

Em vários municípios há o costume de se roubar a bandeira no alto do mastro, para só devolvê-la no ano seguinte. E o autor da proeza fica em segredo, por um ano. Só na festa seguinte é que aparece, seguido por grande cortejo de violeiros e tocadores de sanfona e de bumbo, num foguetório de fazer gosto.

Um médico amigo meu disse-me haver participado, a convite do festeiro, de uma dessas festas, num município do Norte de Minas. A festa era realizada fazia mais de 30 anos, na fazenda do “seu” Nelsinho, um católico praticante. Era promessa da mulher Candinha, por haver arranjado um bom casamento, depois de manter a imagem do Santo de cabeça para baixo, por um bom tempo. Coisa de mulher “encalhada”...

O médico, Dr. Colares, ficou lisonjeado com o convite e prometeu comparecimento, já que o “seu” Nelsinho era pessoa bastante estimada na região, tendo sido, a despeito de sua pouca cultura, prefeito da cidade por dois mandatos. Além disso, tornara seu amigo fraternal e, aos domingos, sempre era convidado para comer um franguinho caipira “que a patroa matou”.

O padre Julião também estaria presente aos festejos, para rezar um terço com as pessoas do Furado do Peixe, antes do levantamento do mastro.

Nélson Quaresma era fazendeiro abastado e, por isso, mandou matar duas rezes e alguns capados para a festa em homenagem a Santo Antônio, pois não poderia fazer feio, já que estava confirmada a presença do padre e do único médico da cidade.

No dia da festa, o padre chegou à tardinha, acompanhado pelo sacristão Joaquim Padre. Às seis da tarde, na sala da sede da fazenda, iniciou-se a reza do terço, seguida por grande número de pessoas.

Terminada a reza, ouviu-se ao longe o espocar de foguetes e o som da sanfona pé-de-bode. Era o cortejo do ladrão da bandeira, que se aproximava. Quando adentraram no grande pátio da fazenda, deu-se para observar que eram mais de 20 pessoas.

Um grande alvoroço se armou já que alguns componentes chegaram com uma vontade louca de “molhar a garganta” com a puríssima cachaça que o festeiro distribuía generosamente, mas somente depois de levantado o grande mastro, previamente enfeitado com papéis coloridos... Mas o mastro havia sido escondido pelo dono da festa, à espera do Dr. Colares, que ainda não havia chegado.

O que fazer? A pressão dos que queriam beber era muito grande e até começaram a cantar alto e bom som: “Esta casa tem goteira? Então, pinga ni nóis...”

Por mais que quisesse, não houve como “seu” Nelsinho aguardar o médico retardatário. O amigo haveria de entender a situação. Por isso, não teve dúvidas e autorizou seu capataz Zacarias a trazer o mastro escondido atrás do paiol.

Começaram a levantar o mastro, com gritos de vivas, inicialmente ao santo homenageado:

-     Viva Sontontóim!

-     Viva!!

-     Viva São Pêdo!

-      Viva!

-      Viva São João!

-      Viva!

Justamente no meio dos vivas aos santos chega o Dr. Colares, acompanhado pela mulher e pelo filho pequeno. Aí o “seu” Nelsinho, orgulhoso e animado, gritou:

-      Viva Dotô Colaro!

-      Viva!

-      Viva a muié delo tombém!

-      Viva!

-      Viva o fiím delo tombém!

-      Viva!

O padre, nessa altura, não gostando daquela mistura de nomes profanos numa festa religiosa, deu uns dez vivas a várias Nossa Senhora: da Abadia, da Conceição, da Assunção, de Montes Claros, Aparecida, Rosa Mística etc. Depois, passou a homenagear as autoridades eclesiásticas:

-      Viva Dom José!

-      Viva!

-      Viva o Papa de Roma!

-      Viva!

Nesse ponto, Regonguel, um acompanhante do cortejo, doido para tomar uma dose da “branquinha” do “seu” Nelsinho, achando que a lista iria ser grande,  não vacilou e gritou forte:

-     Viva os papa do mundo intêro tombém!

Aquele foi o último viva da noite. Até o circunspecto padre Julião  não conseguiu segurar o riso.

 


 Autor: Itamaury Teles (texto e foto)
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15/08/2010
Não mais que um luxo




 

            Milena Narciso, a minha mãe, queria fazer a festa do meu casamento. Na época não havia necessidades hollywoodianas de hoje, mas ela mandou vir de Barbacena um carro de flores, e encomendou meu vestido numa boa costureira. Porém, eu quis me casar numa quinta-feira e escolhi um vestido de tecido de algodão, sem bordados, cauda ou véu. Quando cheguei à porta da igreja, falei com meu pai: “o circo já está montado; podemos começar o espetáculo”. O meu jeito dramático de ser e avessa ao luxo é antigo, mas não me impede de flertar com ele.

O TCC - Trabalho de Conclusão de Curso, mais pomposo até agora deve ter sido “Mastígio”, interpretado - não ousarei dizer apresentado - pelo meu colega André Carvalho. Versava sobre a massificação do luxo, a incoerente popularização do prestígio. A instalação na sala da banca examinadora mostrava, no efeito impactante da chegada, com spots vermelhos, tapete da mesma cor, e duas elegantes recepcionistas, que vestir o tema, e não apenas entrar nele, seria indispensável para a sua compreensão. Teto rebaixado por tecido fino e preto feito caudas drapeadas suspensas, cortinas amplas, cadeiras adornadas com tecido preto acolchoado, ar condicionado ligado - um frio europeu é chique -, bancadas recobertas por brocados brancos bordados de preto, com o mesmo desenho da moldura do documentário que seria mostrado, vasos brancos, em estilo grego, com amplos ramalhetes de rosas brancas, mostruário de produtos finos, e garçons em roupa de gala, compunham o cenário do que estava por vir.

            Diante dos três professores, num ambiente a meia luz, com destaque sobre o seu traje, André Carvalho falou sobre um assunto que lhe é muito caro: o luxo e suas vertentes. O cerimonialista, como gosta de ser referido, tem um vocabulário tão rico quanto seu ramo; bem articulado, fala com vibração do que mais entende: moda. Após a parte teórica, foi apresentado o seu produto: um documentário com entrevistas a pessoas que gostam, usam ou vendem luxo. A avaliação da banca foi ótima, quase total, porém contrariando os presentes, para os quais a nota justa seria dez.

            Então, os garçons, rapazes lindos e vestidos a rigor, entraram espoucando champagne francês, e servindo camarão em mine-travessinhas brancas, e depois bombons finos e outros mimos. Tudo foi surpreendente, do contexto ao texto, pois, com seu discurso autêntico, a apresentação de André Carvalho não foi uma aula, foi um passeio de conversível, com direito a brisa e sol no rosto e cabelos do feliz intérprete.

            Ontem, o novo jornalista deu uma festa no Automóvel Clube de Montes Claros para comemorar os 20 anos da sua empresa Voga Agency, seu aniversário de 38 anos e sua recente formatura. A especialidade de André são as festas temáticas de aniversário e casamento. Para a sua própria festa escolheu a Belle Époque, e na entrada, uma tenda de tecido vermelho formava um túnel, cujo chão estava coberto por tapete também vermelho, encimado por outro acolchoado dourado, dando o tom luxuoso da festa. Havia um grupo de belos rapazes de terno preto e chapéu, ladeando um Chevrolet Cline Master 1947. Luzes giratórias brancas e vermelhas davam ao ambiente da chegada um clima cinematográfico com clarões jogados para o céu. Moças pouco-vestidas de dançarinas de can-can compunham a cena introdutória, junto a penteadeiras de época, e que mais tarde deram um show de dança.  Na escadaria central, que leva ao salão, André Carvalho esperava os convidados sob um pórtico de artísticas cortinas de três cores em composé. Vestido de preto, sobre a cabeça ostentava uma cartola branca. O elegante anfitrião combina com tudo, até mesmo com excentricidades.

Ao adentrar a festa, o ambiente de sonho invade o convidado, com suas mesas cobertas por longas toalhas cor-de-vinho, e sobre elas, outro tecido preto rendado, bem ao estilo francês. Vasos com rosas vermelhas e com velas acesas davam o toque romântico na festa com jeito familiar, na qual era permitido conversar, pois a música estava no tom certo. Num ponto do salão, barmen faziam malabarismos com garrafas, enquanto preparavam drinks tropicais nas mais diversas cores e composições.

Mais tarde aconteceu a cerimônia de brinde em família e um breve discurso do anfitrião, que, muito a vontade, falou que a sua lista de convidados obedeceu ao critério da afetividade, o que muito honrou aos presentes. Mesmo correndo o risco de ferir susceptibilidades nos ausentes, foi servido um abundante jantar francês, para 360 convidados. A mesa de bombons foi outra orgia para a visão (obra de arte com estética impecável), e para a gustação. Sabores finos foram apreciados pelos afortunados amigos. Ao amanhecer haveria um magnífico café da manhã.

Para usufruir bens de qualidade é preciso pertencer ao melhor dos mundos: o universo do luxo, em expansão em Montes Claros , o qual supre a avidez feliz de recentes e antigos consumidores.

*Mara Narciso é médica, jornalista e autora do livro “Segurando a Hiperatividade” – 15 de agosto de 2010.


 Autor: Mara Narciso*
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14/08/2010
POR DETRÁS DO MEU RAY BAN (14.08.2010)



CONDENAÇÃO SUMÁRIA ATÉ QUANDO?

A Delegada Regional de Diamantina, Dolores Santos, vem sendo vítima de ataques à sua imagem pública, que respinga também no conceito da própria Polícia Civil. Seu nome figurou nos principais jornais do Estado, em decorrência de sua prisão preventiva por suposto desvio de verba de combustíveis destinada ao abastecimento de viaturas policiais.

Dolores Santos foi delegada em Montes Claros e outras cidades da região, antes de assumir o importante cargo regional em Diamantina. Deixou aqui uma legião de amigos e admiradores do seu trabalho.

O que chama a atenção neste caso é a forma sensacionalista como o tema vem sendo tratado, ferindo o princípio constitucional da presunção de inocência, na medida em que expõe uma pessoa – no caso, uma autoridade constituída – à execração pública, condenando-a sumariamente, antes mesmo de que possa defender-se perante a Justiça, em suas várias instâncias.

Sem adentrar no mérito da acusação que pesa contra a Delegada Regional, o que precisa acabar em nosso País é a pirotecnia de certos detentores do poder que, movidos pela vaidade da exposição na mídia, muitas vezes examinam de forma perfunctória as provas. Cegos pela ira acusatória, passam por cima do necessário rigor na avaliação probatória e condenam liminarmente até inocentes.

Em caso de inocência do acusado, nada apagará o prejuízo moral à dignidade da pessoa humana, pois os danos à sua imagem se tornarão irreversíveis. E isso é grave: pior que inocentar um culpado é condenar um inocente...

O Sindicato dos Delegados de Polícia de Minas Gerais, em documento encaminhado à coluna, classifica de desnecessária e arbitrária a prisão da Delegada Dolores.

EXPOCACHAÇA DOSE DUPLA NA SERRARIA

Quem aprecia uma boa cachaça artesanal terá uma nova oportunidade de conhecer o que há de melhor neste segmento produtivo, no período de 14 a 17 de outubro, na Serraria Souza Pinto, em Belo Horizonte.

Já denominada “Expocachaça dose dupla” – já que a primeira “dose” ocorreu no período de 28 de maio a 01 de junho, no Expominas -, a nova mostra atende basicamente a pedidos dos saudosistas, que nunca se conformaram com a mudança da Expocachaça do espaço da Serraria Souza Pinto, no centro da Capital, onde o evento foi realizado de 1998 a 2004.

SOB A SOMBRA DO MEU PANAMÁ

AGRADEÇO À DONA MILENE COUTINHO MAURÍCIO pelo envio dos livros “Beco da Vaca” e “Janela do Sobrado”, os únicos que me faltavam do seu saudoso marido, o consagrado escritor João Valle Maurício, de quem tive a honra de ser amigo. Leio-os em doses homeopáticas, saboreando gostosamente cada palavra escrita...

SEXTA-FEIRA 13, EM UM MÊS DE AZIAGO, é muito azar concentrado. Há muita gente que acredita piamente que a bruxa andou solta ontem e nem botou os pés na rua... Para quem gosta destas coisas, cai bem saber certas palavras, para serem ditas distraidamente em meio a uma discussão. Por exemplo, triscaidecafobia é um medo irracional e incomum do número 13. O medo específico da sexta-feira 13 é chamado de parascavedecatriafobia ou frigatriscaidecafobia. Bonito, não? Difícil é decorar...

HOUVE UMA FALHA NO CONVITE do lançamento do livro “Éramos felizes e sabíamos” que foi corrigida a tempo: o dia 21 de agosto será no próximo sábado, e não na sexta-feira, como fora impresso... Portanto, no próximo sábado, 21, às 20 horas, no Skema Kente, o esperado livro terá sua noite de autógrafos. Logo após o aniversário do Maçarico...

A FORÇA AÉREA BRASILEIRA deu um importante passo rumo à transparência no trato do fenômeno ÓVNI – Objetos Voadores Não Identificados – em nosso espaço aéreo. Portaria publicada no Diário Oficial da União, nesta semana, pelo comando da Aeronáutica, terá implicações definitivas nas questões envolvendo os documentos pertinentes à presença dos ÓVNIs no espaço aéreo brasileiro. Neste fim de semana, Seminário de Ufologia Avançada, no Rio de Janeiro, tratará deste tema.

A CÂMARA DE DIRIGENTES LOGISTAS - CDL volta a alertar o comércio para a tentativa de golpe de empresa com sede em São Paulo, que comercializa espaço em lista telefônica ou na internet. “Os comerciantes precisam ficar atentos para não caírem na armadilha”, alerta o vice-presidente da entidade, Gilberto Eleutério. Segundo ele, o esquema denominado “telemarketing do crime” objetiva dar calote nos empresários, ao receber assinatura – ao preço de R$ 602,00 mensais – por serviços que não serão prestados. Olho vivo...

 

PRÊMIO GENTE & IDEIAS 2010, promoção da colunista Adriana Queiróz, será neste sábado, dia 14, no Max-Min. No palco, músicos da Orquestra Sinfônica de Montes Claros e, mais tarde, baladas do DJ PC. Imperdível.

SEMINÁRIO DE DIREITO ELEITORAL foi realizado na noite das últimas quinta e sexta-feira, no Espaço OAB. Auditório lotado, para ouvir palestras de juízes e promotor eleitorais, e também do deputado estadual Árlen Santiago, que novamente se candidata ao cargo. Estive presente, em momento de reciclagem acadêmica...

A PROPÓSITO DE ELEIÇÕES, continua crescendo o prestígio do presidenciável Plínio de Arruda Sampaio – que tem roubado a cena com seu carisma e verve. No âmbito estadual, causou espécie, no debate da Band, na última quinta-feira, a atitude irascível e o descontrole do candidato Hélio Costa (PMDB) ao questionamento do candidato Antônio Anastasia (PSDB), sobre se traria para o seu secretariado o presidente defenestrado dos Correios, seu afilhado político. Costa cuspiu marimbondos...

CARTAS & E-MAILS

Teste da semana – Foto do menino na primeira comunhão

Itamaury, meu abraço.
Pelo tamanho das orelhas, também conhecidas como "precatas", só pode ser Jadir, o megainvestidor do Grupo Café Galo.
Gerson Raul Duarte (
gerson-duarte@ig.com.br – Belo Horizonte – MG)

Resposta:  Você foi o único a acertar, meu caro Gérson. Faz jus, conforme prometido, a um exemplar do livro “Doce prejuízo”. Parabéns...

(PUBLICAÇÃO SIMULTÂNEA COM O JORNAL "O NORTE DE MINAS")


 Autor: Itamaury Teles
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13/08/2010
TUDO NA VIDA É MILAGRE



O dom da oratória, falar em público, nem toda pessoa o tem desenvolvido. Muitos têm bloqueios e por isto não falam. No entanto, acredito: nascemos com todos os dons. Inclusive o da oratória. Se tivermos a oportunidade de desenvolvê-lo, podemos considerá-lo ‘uma bênção’.

Conheço pessoas que tremem feito vara verde quando precisam falar em público. A coisa é mais ou menos como o medo de viajar de avião. O camarada tem medo, mas precisa viajar e então voa com o coração na mão.

E se precisa falar em público, não tendo como escapar da situação, fala. É como não saber nadar e ao ser jogado no mar nadar para não se afogar. Na primeira vez vê o público como uma massa anuviada.

Depois, com a prática, começa a divisar no meio da massa pessoas, individualmente. E quando consegue olhar dentro dos olhos de uma e de outra pessoa, aí então se pode considerar ‘livre dos bloqueios’.

Conheço um adulto que, quando criança, aí em Montes Claros, estudava no Grupo Escolar Gonçalves Chaves, na Praça Dr. João Alves. Estava no terceiro ano do primário. Até tinha o costume de recitar poemas de Olavo Bilac e Cecília Meirelles às segundas-feiras, em frente à turma, depois de cantado o Hino Nacional.

Mas uma vez em que a professora Alba Alkimin recebeu alunos de outra professora e a sala ficou abarrotada, era dia de festa. A criança foi declamar um poema na frente da turma. Tudo ia bem até o momento em que tudo foi mal: esqueceu o verso seguinte. Mesmo sem ‘Omo’, inexistente naquela época, o branco foi total.

A criança chorou. Se houve quem risse a criança nem viu ou ouviu. Sentou-se no lugar e ficou lá decepcionada consigo mesma. Desde então houve um bloqueio e nunca mais no grupo escolar a criança recitou qualquer poema.

Pouco antes de completar 18 anos, quando trabalhava no ‘O Jornal de Montes Claros’, o ex-aluno de dona Alba Alkimin fazia cobertura de ‘esportes’. Era o intervalo de um clássico Ateneu X Casimiro de Abreu. O radialista boa praça e bom de bola, Gelson Dias, falava ao microfone da ZYD-7, Rádio Sociedade Norte de Minas, diretamente do gramado. Ele se aproximou do repórter como quem não queria nada e lascou-lhe uma pergunta ao mesmo tempo em que quase lhe enfiava o microfone boca adentro.

Resultado: de novo deu ‘Omo’, branco total. O repórter não se lembra mais o que se passou em seguida, mas certamente, o competente Gelson Dias deve ter se saído bem. O que ficou no outro foi o bloqueio, o temor de falar em público.

Outras oportunidades nem tão dramáticas aconteceram na vida, até que um dia, como qualquer outro dia, ele estava dentro da Igreja Santo Antônio, na Avenida do Contorno com Rua Espírito Santo, em Belo Horizonte, e viu uma mulher que arranjava os objetos sacros no altar. De repente, ela desceu as escadas do altar e caminhou na direção dele e com o semblante sereno, pediu:

__ Você gostaria de fazer a primeira leitura da liturgia de hoje?

Apanhado assim, de chofre, ele não teve outra resposta:

__ Sim, com a maior alegria!

Desse momento em diante, até ir ao ambão proclamar a palavra de Deus, o coração disparou. Leu, releu e treleu o texto para treinar a leitura e quando foi chegado o momento da ‘Liturgia da Palavra’, proclamou a primeira leitura como se tivesse o costume de fazer isto sempre. A garganta parecia azeitada. As palavras saíam escorreitas.

 Um milagre?

Sim, tudo na vida é milagre.    

Foi ao ver foto de Gelson Dias e Elias Siuf, ladeando o recém falecido ‘titio Bira’ (Ubirajara Toledo; Deus o tenha) publicada no blog ‘Minas Livre’, de Itamaury Teles, que a cena do intervalo do jogo entre Ateneu X Casimiro de Abreu veio à tona.

Naquela ocasião, foi um drama. Mas agora serve de mote para uma boa gargalhada.

Gargalhada compartilhada com Gelson Dias, camarada bom de gogó como ele só.


 Autor: ALBERTO SENA
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Que tal?

- A gente ter um espaço democrático, aberto e sem censura, para a expor nossas idéias, expressar nossos sentimentos?
- A gente emitir e compartilhar opiniões, sem sentimento de culpa, usando essa tribuna livre para criticar, aplaudir, contestar?
- A gente, com a certeza do dever cumprido, contribuir de qualquer forma pela formação das idéias, do caráter e da opinião das pessoas?
- A gente, enfim, viver a generosa dádiva da existência e sorver cada gota com o prazer indescritível de que podemos desfrutar?

Esta é, em síntese, a Certidão de Nascimento do MINASLIVRE.COM.

 
 
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